grupo comunista antípoda

Entrevista para o editorial Pensamiento y Batalla

por G. C. AntípodaPublicado em: 23/09/2026

Introdução

O Grupo Comunista Antípoda é produto do esforço de divulgação de posições teóricas da esquerda comunista durante os debates do processo de racha do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que formou o PCB-RR e mais tarde PCBR; divulgação que teve como ponto importante de articulação o Fio Vermelho - Grupo de Investigação do Comunismo Subterrâneo, fundado na mesma época para a tradução de textos dessa tradição. Algumas das posições defendidas e discutidas durante o racha eram a impossibilidade do “socialismo em um só país” e da “produção socialista de mercadorias”, a crítica da democracia, do nacionalismo e do voluntarismo, e a necessidade de retomada do programa marxista em contraposição às tendências stalinistas dominantes. Com o desenrolar do diálogo dentro do Fio Vermelho e a paralela ossificação do PCBR em um partido stalinista como qualquer outro, o Antípoda é formado em outubro de 2024 por um pequeno grupo de ex-militantes do PCBR no Paraná, rapidamente estabelecendo contato com pessoas de outros estados, compartilhando a característica de insatisfação com as possibilidades de organização no país e uma afinidade teórica.

Nosso grupo surge, então, com a urgência desses ex-militantes em formar-se de maneira mais efetiva e em criar um espaço concreto de debates e análises conjunturais. Assim, iniciamos os nossos estudos, inicialmente, de forma interna, para, em seguida, ampliar nossa rede de formação. Atualmente, estamos organizando um grupo de estudos, cujo objetivo é possibilitar o contato direto com a obra de Marx — em especial O Capital — e, paralelamente, estudar as conexões deste com textos da tradição da esquerda comunista.

Nesse processo de investigação, entramos em contato com a teoria da comunização e sua importante colocação da impossibilidade da afirmação da classe operária enquanto polo da disputa capital-trabalho nos dias de hoje, em que a crise secular do capital se faz cada vez mais aparente; assim como do caráter contra-revolucionário que tal afirmação de classe teve no passado. Assim, entendemos a revolução como a superação da autorreprodução da relação de classe capitalista, o movimento de autoabolição do proletariado a partir da superação dos limites de suas lutas cotidianas e, consequentemente, o fim de todas as formas sociais implicadas nessa reprodução de classe (valor, gênero, direito, propriedade, Estado, etc).

Um de nossos objetivos é a produção de análises da conjuntura brasileira e global a partir dessas perspectivas teóricas. Nosso objetivo futuro é a formação de uma organização capaz de engajar e interagir de forma útil com as grandes revoltas de nosso tempo, elaborar coletivamente sobre suas verdades e limites, e contribuir para o delineamento dos contornos do proletariado brasileiro e suas formas de luta cotidianas — considerando que o ato de simplesmente ouvir o que os trabalhadores têm a dizer sobre a própria condição é algo um tanto raro nas nossas organizações de esquerda.

Tendo isso em vista, nossa atividade até o momento tem se desenrolado na forma de produção de materiais agitativos e na recolha de denúncias de trabalhadores para a divulgação em locais de trabalho. Além disso, organizamos o já mencionado grupo de estudos e buscamos produzir traduções e análises relevantes para nossa conjuntura e para o desenvolvimento de uma ultraesquerda atuante em nosso país. Parafraseando a revista Théorie Communiste, buscamos — dentro de nossos limites — não ser nem ser órfãos do movimento operário, nem profetas do comunismo por vir, mas participar da luta de classes como ela é no dia-a-dia e conforme ela produz teoria.

Entrevista

1 - Poderiam relatar sua experiência militante dentro dos partidos de extrema-esquerda que se separaram do PCB? Quais são as principais críticas que fazem a grupos dessa natureza?

É importante ressaltar que a maioria dos membros dos Antípoda saídos do PCBR eram antes de uma célula de movimento estudantil, ou tinham sua principal atuação ali. Com isso, muitas questões sobre nossa razão de existir acabavam surgindo, de um lado falavam que era apenas um treinamento para o que realmente importava, a formação de futuros sindicalistas, e de outro, que havia grande importância na conquista de entidades como a União Nacional dos Estudantes, e que essa conquista era possível sem o abandono dos princípios revolucionários.

Esse desenho incompleto, essa falta de conexão entre o que fazíamos e o que almejávamos criava um desconforto. O grande evento revolucionário não parecia tomar forma a partir do movimento estudantil, e, ao mesmo tempo, outros militantes, fossem da nossa ou de outras organizações, fossem do ME ou outros locais de atuação, também não sabiam dizer como se daria esse processo. Sem uma noção do que precisava ser feito, do que realmente importava, o desconforto crescia ao passo que tentávamos ignorá-lo, indo pela lógica de que com o tempo as engrenagens iriam se conectar e girar em harmonia, de que bastava seguir fazendo alguma coisa.

Restava também nos diferenciar daqueles que provavelmente estavam na mesma situação que a nossa, podíamos estar mal, mas pelo menos não estávamos nessa ou naquela organização, cheia de problemas com militantes que nada sabiam sobre Marx. Mas, com o tempo, nosso partido também se mostrava cheio de problemas — sempre os mesmos problemas — e nossos dirigentes também nada sabiam (ou muito desperdiçavam) de Marx.

Ainda que o racha com o PCB e a criação do Reconstrução Revolucionária tivessem criado um potencial transformador, o mesmo se dissipou rapidamente. O PCB era um partido bagunçado o suficiente para que muitas linhas de pensamento pudessem florescer e, no entanto, o centrismo — caracterizado pela falta de princípios e pelo excesso de manobras imediatas — já era predominante. Para ser vitoriosa, a linha tinha de falar o que a maioria já pensava, que o programa do partido, apesar de correto, precisava de uma mera atualização nos métodos.

Nossa principal crítica a esses partidos é que eles não têm motivos para existir, caso se juntassem todos em um único grupo, poucas discordâncias apareceriam, talvez até tivessem maior sucesso eleitoral. Além disso, caso o Partido dos Trabalhadores caísse do poder, aqueles que não fossem às ruas por sua restituição proclamariam a si mesmos como seus herdeiros legítimos, incumbidos da tarefa de completar as promessas burguesas pendentes. Esse ponto se prova quando acompanhamos o debate sobre a soberania nacional, pautada pelo governo petista em resposta às tarifas americanas e acolhidas pelos comunistas (como criticamos em nosso texto “O nacionalismo dos nossos dias”). Aquilo que se disfarça de uma proposta revolucionária é apenas uma defesa da ordem burguesa e dos interesses nacionais, que atropelam nossos povos originários e expandem a ditadura no chão de fábrica.

2 - Como conheceram a experiência da Esquerda Comunista? Que elementos teóricos resgatam dessa tradição revolucionária internacionalista?

O processo do racha e a abertura das tribunas de debates criavam um ambiente propício para isso. Muitos de nós já tínhamos percebido algo incongruente nas ações do partido, entre o que víamos nos textos estudados e as ações tomadas por ele. Mas agora éramos incentivados a discorrer sobre o que o partido deveria fazer, se deveria disputar essa ou aquela entidade, se infiltrar nesse ou naquele espaço, se organizar dessa ou daquela forma. O fato de termos sido parte daqueles que aderiram a posições da esquerda comunista se relaciona com uma necessidade de resgate de princípios invariantes do conteúdo do comunismo face às reformulações destes que apareciam nos debates, como o “socialismo de mercado” chinês ou a importância dada pelas alas direitistas do partido a um “nacionalismo popular”; dessa forma, o sentimento de incompletude que havia entre nós foi apaziguado pelos textos de Bordiga e da Esquerda Comunista Italiana. Esse grupo apresentava cada ideia como parte integrante de um todo coeso, aonde o partido não deve abandonar seus princípios e simplesmente manobrar suas ações conforme dita o momento presente. Com isso, um fio se desenhava — entre o que fazemos e o que é o movimento real que abole todo o estado de coisas presente — as críticas ao partido saíam do nível mecânico, do tipo que se dá em uma reunião de publicitários de uma empresa para algo um pouco mais complicado: seria nossa organização um partido, um partido comunista?.

Atualmente, nosso repertório não é composto apenas de textos da Esquerda Comunista Italiana, e isso nos possibilitou desenvolver críticas a seus representantes contemporâneos. Esses grupos, compelidos pela ideia de que a revolução está determinada a acontecer da mesma forma que em 1917, se isentam da tarefa de estudar as transformações da sociedade atual. Por exemplo, a questão Palestina passa a ser respondida com uma copypasta, “transformar a [suposta] guerra inter-imperialista em uma guerra civil revolucionária!”.

Compreendemos, é claro, a importância dos escritos dessa corrente em discernir qual seria o programa comunista e o democrático-nacional num momento em que ambos eram derretidos um no outro, formando o amálgama que apodreceria tantas organizações até os dias atuais. No entanto, a ideia de que a janela para uma revolução de afirmação e universalização da condição proletária ainda está aberta não parece se sustentar, e o partido que nascerá do solo da sociedade contemporânea não parece possível de encarnar em uma única organização formal. Isto é, o antigo horizonte — o das revoluções proletárias aos moldes do século XX — não está mais em nosso alcance, novos problemas aparecem e, com eles, diferentes perspectivas teóricas para visualizar suas possíveis soluções.

3 - Podem explicar com mais detalhes os elementos da teoria da comunização que adotaram ou consideram relevantes como grupo?

Entramos em contato com a teoria da comunização inicialmente a partir de uma busca por perspectivas históricas sobre a derrota do movimento comunista ao longo do século XX. O primeiro volume da revista Endnotes, que apresenta o debate entre Théorie Communiste (TC) e Troploin sobre esse assunto, foi de grande ajuda a esse respeito. No prefácio desse mesmo volume, Endnotes descreve sinteticamente o percurso histórico de formação da corrente comunizadora: uma síntese entre posições e críticas das esquerdas italiana e germano-holandesa e da Internacional Situacionista, realizada na França durante o refluxo do movimento de 68 e na tentativa de compreender sua derrota. De imediato, para comunistas recém-saídos de um contexto de militância assombrado pela veneração acrítica dos fantasmas daquele século e recém-introduzidos às ideias dessas diferentes tendências, os textos foram de grande interesse.

As contribuições da TC a esse debate, em especial, nos esclareceram um ponto importante: a derrota da revolução no século XX não se deu por “traições” à classe operária, como alguns grupos da ultraesquerda costumam dizer, mas porque o próprio horizonte revolucionário do início do século XX continha dentro de si a contrarrevolução, sendo determinado pela relação de classe capitalista da época e suas formas cada vez mais sociais de consumo da força de trabalho e cada vez mais limitadas de apropriação, pelo capital, da força de trabalho no processo de produção e reprodução. O resultado de tais determinações históricas na relação de classe capitalista — periodizadas por TC como a primeira fase da subsunção real do trabalho ao capital — foi a revolução como afirmação da classe operária particularizada, unida sob o signo do trabalho e com suas próprias características identitárias e culturais. A contradição é que, com a revolução tendo como horizonte a afirmação da classe proletária — seja na forma do Estado proletário transitório ou da autogestão pelos conselhos — afirma-se necessariamente uma classe do modo de produção capitalista, um polo da relação de classe cuja reprodução é o produto final desse mesmo modo de produção.

Em contrapartida, a partir da reestruturação nos anos 70 e as consequentes mudanças na relação de classe capitalista, o pertencimento à classe, durante as lutas proletárias contemporâneas, não aparece mais como algo a ser afirmado, mas como uma restrição externa à luta contra o capital. A forma que tal restrição aparece, ou seja, o principal obstáculo que as lutas atuais precisam superar é a própria auto-organização das lutas, pois sempre se trata de auto-organização de classe. Tal superação se dará por dentro da auto-organização e no desenrolar das lutas. Seu resultado precisa ser a mudança nas relações entre os indivíduos que compõem atualmente o proletariado, num processo de autoabolição dessa classe, de forma a não mais dependerem da forma-valor para a própria reprodução, ou seja, o comunismo.

Para constituir-se como uma classe revolucionária, o proletariado precisa passar por um árduo processo de autotransformação a partir de e contra aquilo que é. O primeiro passo desse processo é a auto-organização, a partir daí, a auto-organização torna-se o novo problema a ser enfrentado. 1

4 - Qual vocês acreditam ser o papel e as tarefas que grupos como o Antípoda devem desenvolver, tanto em processos de refluxo das lutas quanto em situações de revolta aberta?

Como uma organização comunista, o Antípoda compreende a intervenção e a práxis revolucionária como sendo intimamente ligadas ao curso do movimento autônomo da classe, de forma a influenciar os rumos deste movimento na direção da superação de seus próprios limites. A luta contra o capital no século XXI se dá em diversas frentes. A análise de cada luta, em suas particularidades, e de seu potencial organizativo e de ruptura deve nortear a atuação das organizações comunistas no movimento real.

Nos momentos de calmaria, a tarefa dos grupos comunistas é mapear, analisar, dialogar e interagir efetivamente com as lutas cotidianas dos trabalhadores — organizadas ou não — dentro e fora dos locais de trabalho, criando redes de contato e buscando, na medida do possível, influenciá-las na direção da independência em relação ao Estado e da recusa ao trabalho. Para além disso, a compreensão da situação econômica e política da região de atuação, das condições de trabalho e reprodução da classe e dos interesses de classe em jogo nos diferentes momentos é de suma importância para o delineamento da conjuntura e dos potenciais de ruptura existentes. Nesse sentido, o diálogo com organizações e revoltas em outros países também é fundamental, num sistema de correspondência comunista, pois sendo o capitalismo necessariamente um sistema mundial, suas crises acontecem sempre em cadeia, como podemos observar nas atuais “revoltas da Gen Z” que estouraram na Indonésia, Filipinas, Nepal, Marrocos, Madagascar, Colômbia e Peru.

Nos momentos de revolta aberta, a prioridade dos comunistas deve ser a interação efetiva — verdadeiramente útil — com o movimento, na forma, por exemplo, de tarefas como a fabricação de escudos, panfletos com instruções de segurança, comitês de primeiros-socorros, coleta de dinheiro para a libertação de presos políticos, etc. É nesse tipo de tarefa que reside o potencial de adesão de uma parcela da classe ao programa da organização e, portanto, é aí que está a possibilidade de influenciar o movimento de revolta na direção da superação de seus limites: não mais a volta das barricadas para casa e depois para o trabalho. Não mais o apaziguamento do conflito após a destituição do presidente ou a reforma constitucional, mas a produção da “situação que inviabiliza qualquer retorno e em que as próprias condições gritam: Hic Rhodus, hic salta! [Aqui é Rodes, salta aqui mesmo!]” (Marx, 18 de Brumário).

5 - Vocês têm vínculos ou contato com outros grupos, coletivos e organizações que defendem posições semelhantes às suas? Sob quais critérios vocês dialogam com eles?

As principais organizações com que mantemos contato são o Coletivo Ruptura, de Portugal, e a Transição Socialista, do Brasil, ainda que as relações que travamos com ambas sejam informais, numa troca constante de experiências e análises com alguns militantes em específico, que compartilham com alguns de nós o espaço do grupo de tradução Fio Vermelho. Também mantemos contato com o grupo de tradução e propaganda Crítica Desapiedada, que mantém um espaço de debates e divulgação um tanto ecumênico que engloba anarquistas, conselhistas, autonomistas e camaradas de outras correntes revolucionárias. Por fim, temos recentemente participado de encontros mensais de diálogos militantes, com grupos de diferentes partes do país como Invisíveis, Tem Base?, Movimento Trabalho e Dignidade, A Voz Rouca, Treta no Trampo, Luta Operária, entre outros, que apresentam suas experiências de luta e organização nos mais variados contextos; um espaço que se provou muito frutífero e de grande ajuda para pensarmos nossas próximas estratégias enquanto organização.

Nossos critérios para o diálogo com esses diferentes grupos, ainda que não formalizados, podem ser resumidos como:

  1. a crença na necessidade da abolição do capital e das diferentes formas de dominação derivadas de sua reprodução;
  2. a compreensão de que tal abolição só pode se dar pela via revolucionária, ou seja, diretamente contra as vias da reforma e do desenvolvimento;
  3. uma tendência em favor da escuta ao proletariado, não porque desejamos fazer uma apologia do operário ou de seu local de trabalho em suas condições imediatas, mas porque entendemos que o processo revolucionário passa pelo traçar de contornos das lutas diárias do proletariado e participação nessas lutas de forma organizada.

6 - Qual é a sua opinião sobre o meio radical e autônomo brasileiro? Em que estado de forças vocês acreditam que ele se encontra hoje? Que perspectivas vocês acreditam que precisam ser impulsionadas?

O meio radical brasileiro encontra-se, paralelamente ao longo refluxo no próprio movimento da classe, em um momento de retração. Mesmo os partidos da dita esquerda radical que crescem em números o fazem a partir de compromissos ideológicos e táticos cada vez maiores com o petismo. Isso se expressa na forma de alianças eleitorais, frentes locais de luta e programas nacionalistas, desenvolvimentistas e reformistas regurgitados em diferentes formas já há um século.

Um exemplo dessa retração é o foco que essas organizações dão a projetos de administração do orçamento estatal. Uma grande parcela de nossa esquerda radical, desde 2023, não para de combater o Arcabouço Fiscal proposto pelo novo governo Lula e demandar a taxação dos super ricos, isto é, têm como objetivo estratégico dar conselhos ao governo sobre o destino do mais-valor extraído dos trabalhadores ao mesmo tempo que afirmam lutar por eles. A vitória dessa estratégia é que o mais-valor extraído seja aplicado em políticas sociais. Tal perspectiva não ataca a relação de exploração capitalista, mas a aceita como dado.

O meio autônomo, ainda que pequeno em números, encontra-se em contraposição a essas tendências, buscando, neste momento de refluxo, inserir-se nos locais de trabalho e criar uma rede de denúncia e pesquisa sobre as condições de trabalho no Brasil. As organizações que citamos na resposta anterior envolvem-se em lutas na educação — de professores e funcionários terceirizados — nos supermercados, nas fábricas, dos motoboys, entre outras. Esse tipo de atuação, ainda que necessário, tem seus limites, como aponta um grupo de militantes em sua “Carta aos Invisíveis”: a organização cotidiana nos locais de trabalho tende à administração e solução de problemas diários 2, a auto-organização da classe tem o limite de ser a auto-organização de uma classe no modo de produção capitalista, e a autonomia muitas vezes aparece como uma forma radical de sindicalismo. Contudo, da mesma forma, as revoltas apresentam um limite que se repete em suas diversas aparições pelo mundo: têm se mostrado incapazes de penetrar na esfera da produção e interromper a valorização do valor, limitando-se a atacar as instituições da reprodução capitalista e interromper a circulação de mercadorias. Durante esses eventos, a coerção do capital para o restabelecimento da reprodução da relação de classe capitalista, realizada por meio do Estado — a polícia, geralmente — produz para o proletariado o pertencimento de classe e a própria relação de classe como uma restrição exterior que pesa sobre sua sobrevivência, e podem assim ser postos em questão. Contudo, conforme os revoltosos mostram-se incapazes de interromper a produção e utilizar seus elementos para seus próprios fins, a coerção capitalista eventualmente se realiza e a revolta se esvanece.

Dessa forma, a organização cotidiana nos locais de trabalho e a revolta apresentam ambas seus próprios limites. A primeira precisa ultrapassar seu elemento cotidiano e tornar-se uma organização da recusa ao trabalho no momento do conflito — o que levará ao questionamento da própria “organização” em si, na medida em que é uma organização de classe. A segunda precisa adentrar a esfera do trabalho para interrompê-lo, impedindo a valorização do valor e tomando os elementos da produção para seus próprios fins — com todos os limites e ambiguidades da autogestão que isso acarreta. Acreditamos que um problema complementa o outro, isto é, a solução de um passa pela do outro: é preciso organizar a recusa para produzir a recusa da organização. A forma que tal solução se desenrolará de fato não pode ser prevista a priori nem teorizada aos moldes de qualquer “forma organizativa”, é dependente da conjuntura, ou seja, da atividade das classes em jogo e da capacidade da revolução de criticar a si mesma e voltar-se contra suas próprias causas.

7 - Em quais lutas proletárias vocês se envolveram com as tarefas de agitação que realizam? Vocês têm contatos mais fluidos e permanentes com alguns setores de trabalhadoras e trabalhadores?

Tivemos pouco envolvimento nas lutas do proletariado até o momento. Nossas tarefas de agitação foram intervenções externas que se mantiveram em níveis superficiais dentro de suas respectivas lutas, isto é, foram apenas panfletagens nas ruas e terminais de ônibus sobre temas como a redução da jornada de trabalho ou casos de violência policial, aproveitando para trocar ideias com diferentes pessoas a respeito desses assuntos quando surgiam oportunidades. Em Curitiba, a cidade em que temos mais membros e, portanto, mais capacidade de atuação, não encontramos muitas possibilidades interessantes de intervir. A esquerda nessa cidade, no momento, muitas vezes se assemelha a uma espécie de subcultura autorreferencial, realizando atos de militantes para militantes em que se ouve, como num colóquio, um militante de cada organização fazendo uma fala. Além disso, os maiores atos dos últimos tempos foram sobre temas como a defesa da soberania nacional ou do mandato de uma vereadora do PSOL, que desde o início se apresentam como pautas interclassistas e cidadãs.

O contexto do chamado abolicionismo, isto é, a luta contra as polícias e o aparato repressivo estatal, se apresenta com maior potencial na cidade. Há aqui um grupo abolicionista chamado Rede Nenhuma Vida a Menos atuando, em especial na comunidade do Parolin, para a preservação da memória de vítimas da violência policial e na luta pelo desinvestimento e fim da polícia. Participamos de atos e rodas de conversa organizados por esse grupo, em que buscamos intervir relacionando a luta contra a violência policial com as revoltas que têm estourado pelo mundo, assim como refletindo sobre o papel contra-insurgente que os investimentos massivos na polícia militar do Paraná tiveram, por exemplo, na repressão da revolta de Londrina do início do ano, após o assassinato dos jovens Wender e Kevin, quando o governo do estado enviou tropas das forças especiais para conter a reação revoltosa da Favela da Bratac. 3

Acreditamos, contudo, tendo em vista a resposta da pergunta anterior, que a prioridade de nossa atuação deve ser nos locais de trabalho. Não apresentando unilateralmente ideias sobre organização ou programa, com panfletos explicando aos trabalhadores a própria situação e o que devem fazer a respeito, mas ouvindo o que os trabalhadores têm a dizer, buscando conhecer suas condições de trabalho e reprodução e amplificando suas próprias denúncias. Até o momento, não fomos capazes de pôr em prática essas posições, mas acreditamos que essa nossa grande limitação dá sinais de ser gradualmente superada: recentemente, por exemplo, fomos capazes de recolher diversas denúncias de uma trabalhadora de uma rede de supermercados local, que serão usadas para a agitação em outros supermercados da mesma empresa, buscando criar uma rede inicial de denúncia e inquérito nesses locais de trabalho.

8 - Como vocês avaliam, em termos conjunturais, o momento atual da sociedade brasileira? Quais vocês acreditam que são os fatores mais determinantes na luta de classes?

Não obstante a continuidade de elementos barulhentos à direita, o momento parece ser marcado por uma reinstitucionalização da política. Isso tem atuado sobretudo no sentido de reabsorção de movimentos classistas pela representação política, conforme lutas pela redução da jornada de trabalho são esvaziadas e desviadas ou substituídas por bandeiras nacionalistas e reformistas. Tal trajeto de hegemonização foi reforçado pela tentativa, por parte do “bolsonarismo”, de atrair intervenção americana na política brasileira ao requisitar do governo Trump a aplicação de tarifas visando a anistia para Jair Bolsonaro; o resultado foi um fortalecimento da posição do governo, também beneficiado por lutas dos trabalhadores que foram redirecionadas por organizações reformistas, sobretudo do PSOL, para demandas legislativas, orçamentárias, tributárias e assim por diante. No fim do ano passado, por exemplo, quando a luta pelo fim da escala 6x1 começava a produzir atos massificados e algumas greves, um ato marcado para dezembro foi totalmente esvaziado, pois o PSOL não julgou necessário participar, dado que o projeto de lei não seria votado mais naquele ano. Isso é demonstrativo tanto da força que tal partido adquiriu nessa pauta — por meio de seu principal propagandista, Rick Azevedo — quanto da perspectiva que ele adotou nesse processo, em grande parte responsável por seu enfraquecimento em 2025.

A situação econômica também se afastou do abismo, enquanto o espetáculo político dos últimos anos gastou energias à toa: houve um grande esforço de atenção, mobilização e gasto de recursos no vai e vem da política institucional, principalmente nos reveses do PT, com o uso das parcas forças de mobilização para soltar Lula, depois elegê-lo, depois contra os ataques em Brasília no 8 de janeiro, etc. Em consequência, a falta de urgência se soma a uma apatia aprendida para dizer aos explorados e oprimidos que não vale a pena lutar. A constante na luta de classes no Brasil, por mais de uma década, tem sido a dificuldade da classe trabalhadora de sair da sombra do petismo e suas manobras de reabsorção. Em parte, isso se deve também a que fora do petismo a própria subjetividade política de classe arrisca se dissolver, de tal modo que, com raras exceções, mantém-se a crença de que diante de qualquer ofensiva patronal ou da direita, será necessário retomar o apoio ao PT. Talvez por isso ter sido aprendido na prática no périplo do decênio 2013-2023, hoje nem mesmo se vislumbram grandes tentativas de romper com a hegemonia petista, como se os trabalhadores e os movimentos sociais já antecipassem mentalmente que repetiriam o percurso.

Nesse panorama geral o ambiente se abre aos miasmas fascistas, com toda a imprensa dando sua benção à violência estatal, também abraçada pela burguesia e pequena-burguesia, que regozijam ao contar os cadáveres que descem das favelas. Essa calmaria relativa não pode durar muito, e deve aguardar, como tem sido nos últimos anos, novos eventos, na política e na economia, para deflagrar novas tendências.