O Antifascismo é o pior produto do Fascismo: Amadeo Bordiga e a esquerda no labirinto
A ESQUERDA SE ENGANA NOVAMENTE
Com a certeza da vitória, os setores da esquerda do capital baixaram sua guarda, deram tapinhas nas próprias costas e esperaram colher flores onde foi plantada tempestade. Aquelas organizações e partidos que se colocam como “esquerda radical” ousaram criticar (de maneira construtiva ou agressiva, pouco importa) o petismo e seu legado político, mas não mais! Cerremos fileiras — lulistas ou comunistas, trotskistas ou stalinistas, anarquistas ou reformistas — pois é chegada a hora de defender o açougue da chegada do açougueiro. Quem agora arrisca desertar do “exército” do Lula é um traidor da pátria, da democracia e até mesmo da “revolução” (para os reais partidários desta última, no entanto, as primeiras acusações são bem-vindas). Porém, cabe perguntar: os traidores da revolução seriam aqueles que se deixam levar pela contingência do processo eleitoral, feito sob medida pelo capitalismo, ou os que se recusam a atribuir à urna a eleição do destino da humanidade? No discurso dos guardiões da ordem democrática, tudo se resolve pela maioria. Contudo, para quem segue a via da catástrofe — único caminho pelo qual se pode destroçar o reino do valor — resta afirmar: não existe segundo turno para o fim do mundo.
UMA SURPRESA QUE NÃO DEVERIA EXISTIR
Esses ativistas de plantão se encontram em um difícil dilema: conduziram as atividades dos últimos anos à defesa da democracia, tudo para serem esfaqueados pelas costas aos 45’ do segundo turno. Isso não deveria pegar ninguém de surpresa, a defesa do Estado democrático implica no fortalecimento do aparato estatal, e este não precisa firmar compromissos com aqueles que seguem todas as regras. Na verdade, a normalidade democrática — principiada pelo ideal burguês de liberdade e cidadania — faz uso das mesmas técnicas que os regimes fascistas, sua vantagem está no fato de não precisar devastar de uma vez as organizações proletárias, pode incorporá-las no interior de suas instituições, domesticá-las. 1 Esse é o charme do democratismo. A democracia liberal e o fascismo nos anos 20 e 30 não refletiram mais do que fases de desenvolvimento assíncronas do capitalismo em vários países. 2 A falsa dicotomia democracia vs fascismo apenas esconde uma relação de interdependência, evidente quando lembramos que tanto na Alemanha quanto na Itália — casos em que o termo fascismo pode ser corretamente aplicado — os fascistas chegaram ao poder por vias legais, com a concessão de seus civilizados rivais. Do mesmo modo que o fascismo passou, com anuência da democracia, sua aparente derrota tampouco se explica pela oposição organizada nos marcos democráticos. Não fora, por exemplo, a Frente Popular de Blum, na França, quem impedira o fascismo em 1936, mas a inexistência da necessidade de uma unificação autoritária do capital ou de uma liquidação das classes médias, elementos caros para a modernização realizada pelo fascismo em prol do desenvolvimento capitalista. O fascismo veio de fora, pelos tanques alemães e foi gerido com a colaboração de um imenso rol de políticos e sindicalistas da esquerda francesa, como René Belin, Marcel Déat, Paul Faure, entre outros.
Fascismo e Antifascismo
“O fascismo roubou do proletariado seu segredo: a organização… Liberalismo é somente ideologia sem organização, fascismo é só organização sem ideologia”. (Bordiga)
Definimos o fascismo como um produto da imposição e decadência da reprodução capitalista, sendo o movimento que apareceu historicamente visando unificar os capitais, eliminar as contradições dentro da burguesia e discipliná-la. Copiando o segredo da atividade proletária, o fascismo surge nas ruas e promove a desordem enquanto pede pela ordem, terminando por regenerar o Estado, no momento incapaz de resolver as crises capitalistas.
Entendendo o fascismo como um desenvolvimento anormal da civilização — estado normativo ao qual a sociedade deve retornar — o antifascismo propõe a colaboração entre trabalhadores e burgueses reformistas. Frente aquilo que entendem como um avanço do capital financeiro, os antifascistas defendem uma intervenção estatal, o fortalecimento da institucionalidade democrática para trazer equilíbrio à correlação de forças. No entanto, é esse binômio diagnóstico-tratamento que, estando errado, garante apenas o fortalecimento do Estado e os métodos repressivos que compartilha com sua face fascista. Isto é, o fascismo deixa o poder (mesmo que a burguesia não tenha sido capaz de se disciplinar, resolver suas contradições e unificar os capitais), a sensação de vitória entorpece e agora os trabalhadores podem comemorar que o porrete que os golpeia é democrático e não fascista.
O campo revolucionário postula há tempos a democracia no fascismo e o fascismo na democracia. A primeira unidade se mostra no aspecto populista, unificador e legalista do primeiro. Se o fascismo é revolucionário, é uma revolução contra a revolução, uma tentativa de garantir a ordem até mesmo em detrimento de sua estabilidade momentânea, muitas vezes levando consigo a realização de vários pontos dos programas reformistas e das esquerdas locais. 3 A mesma unidade da nação propagandeada no momento de exercer a cidadania pelo voto é validada pelos meios mais violentos e arbitrários. Porém, o arbítrio e a crueldade, desde sempre presentes na democracia, recebem nova vida quando esta faz escola com o fascismo. Este, como campo de experimento social, permitiu que a sociedade burguesa internalizasse um nível de controle social e econômico superior, como visto no dirigismo pós-guerra e no aumento da coordenação capitalista para a repressão de qualquer sinal de abalo ao seu sistema. Isso fica ainda mais claro na repressão aos movimentos anti-coloniais. O colonialismo francês faz de Sétif e Guelma seu certificado de láurea na escola do nacional-socialismo.
ATIVIDADE REVOLUCIONÁRIA PARA COMBATER O FASCISMO
Bordiga chama a atenção para a ofensiva do proletariado italiano em agosto de 1922, antes da Marcha sobre Roma, onde com protagonismo do sindicato dos ferroviários e do Partido Comunista da Itália se organizou uma greve geral no país a despeito da hesitação da Confederação Geral do Trabalho — a maior organização sindical na articulação da Aliança do Trabalho. A paralisação da rede ferroviária comprometeu o próprio deslocamento das forças da reação (fascistas com apoio estatal), e o proletariado em várias regiões do país enfrentou diretamente os fascistas. 4
A recusa da subordinação a um bloco político antifascista — reunindo diferentes partidos em prol de uma representação parlamentar medíocre às expensas do programa comunista — foi indispensável para viabilizar a ofensiva revolucionária a qual os fascistas não foram capazes de vencer pela força naquele momento. A lição da experiência foi de que apenas a luta segundo métodos revolucionários, desprovida de quaisquer ilusões com a democracia — que vicejavam na própria Aliança do Trabalho — se prova consequente para enfrentar o fascismo.
Ao contrário do que sucedia no fascismo dos anos 20 e 30, os “diferentes elementos sociais constitutivos do novo radicalismo de direita” não confluem para um poder central coerente e capaz de reproduzir-se, não se verifica um “retorno da nação”, mas sim do “nacionalismo (…) sobre a base da guerra selvagem pela distribuição dos recursos” econômicos cada vez mais escassos 5, não sendo mais elegíveis como signo modernizante e manifestando mais do que nunca a desagregação. Entretanto, a força que a “ameaça fascista” tem, frequentemente descrita nos mesmos termos de outrora, para reinscrever todas as elaborações da esquerda do capital no interior da democracia, do antifascismo, custa a esmaecer! Assim, o pior produto do fascismo, em toda a sua dimensão contrarrevolucionária de promessa de retorno à tal normalidade democrática, parece seguir sendo o antifascismo, conforme escreveu Dauvé. 6