Consciência de Classe ou Composição de Classe?
Comentário da Tradução
por Moira Dias
Com o anúncio da morte de qualquer teoria comunista materialista — anúncio esse dado pelas diversas derrotas práticas dos comunistas do século passado —, uniram-se numa santa defesa do humanismo tanto leninistas quanto trotskistas, social-democratas declarados, stalinistas, maoistas, gramscianos, ecossocialistas e anarquistas. Dessa santa defesa nasceu um vocabulário comum para a esquerda, fruto também do vocabulário comum de uma outra época de militantes, como o próprio Lenin. O resultado mais vil deste glossário, saído do aterro sanitário onde se encontram hoje quaisquer grupos autoproclamados comunistas, é a “Consciência de Classe”.
Sua maldade não é somente dada pelo anti-materialismo inerente dessa noção, tendo em vista que é preciso ler e debater seu criador como um teórico cuja importância é tão grande quanto a necessidade de criticá-lo, mas essa maldade vem pelo véu que esse termo está coberto: os comunistas, em sua formação inicial ou continuada, pouco sabem de onde vem seu vocabulário comum e pouco sabem de onde vem seus métodos militantes, portanto, tanto seu vocabulário quanto seus métodos são “naturais”. Notem, muitos podem dizer que suas origens remetem a Marx, Engels, Lenin e ao velho movimento operário e isso é, em partes, verdade. Mas a forma que ambos aparecem hoje nada tem a ver com uma aprofundação meticulosa nos escritos de Marx, Engels, Lenin, ou na história da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), do Partido Bolchevique, da Terceira Internacional e dos sindicatos revolucionários. O vocabulário comum dos comunistas hoje, assim como os seus métodos militantes, são muito mais uma camuflagem para a repetição dos mesmos erros de toda a história do Movimento Comunista e Operário.
Esse texto que escrevo aqui, essa leve introdução, é, também, uma introdução para esta prática de remar contra a maré da calcificação dos nossos métodos e vocabulários. Aproveito para recomendar também o Livro “O sujeito revolucionário em História e Consciência de Classe”, de Irene Maestro, como crítica pormenorizada do pensamento de Lukács para além da mera crítica da consciência de classe, e “Enquete Operária: Uma Genealogia” de Salar Mohandesi e Asad Haider, como um indicativo para uma conclusão consequente e militante à “Composição de Classe” retratada no texto a seguir.
Desejo a todes uma ótima leitura!
Consciência de Classe ou Composição de Classe?
por Salar Mohandesi
Resumo
Talvez classe seja o conceito mais central na tradição marxista. Mas é também um dos mais ambíguos. Parte dessa dificuldade resulta do uso criativo do conceito pelo próprio Marx, para se referir tanto a categorias econômicas como a sujeitos políticos. A tensão entre essas duas definições de classe é central para dois modelos que têm sido historicamente mobilizados para a resolução produtiva desta tensão: o modelo de consciência de classe, por um lado, e o de composição de classe, por outro. Este último modelo é, em última análise, o mais frutífero dos dois, embora alguns usos recentes do modelo da composição de classes tenham se aproximado muito da reavaliação implícita de algumas das virtudes do modelo rival da consciência de classe.
1. Ambiguidades na concepção marxiana de classe1
Como muitos comentadores observaram, encontramos em Karl Marx a articulação de duas concepções distintas de classe. Esta passagem do Manifesto do Partido Comunista fornece um esclarecimento adequado da primeira:
Com o desenvolvimento da burguesia, isto é, do capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos operários modernos, os quais só vivem enquanto têm trabalho e só têm trabalho enquanto seu trabalho aumenta o capital. Esses operários, constrangidos a vender-se a retalho, são mercadoria, artigo de comércio como qualquer outro; em consequência, estão sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado (Marx; Engels, 1998, p. 46).
Embora Marx viesse a refinar sua posição, distinguindo de forma crucial trabalho e força de trabalho em suas obras posteriores, a definição geral de proletariado delineada acima permanecerá inalterada: o proletariado é a classe de trabalhadores que, tendo sido separados à força dos meios de produção, são condenados a trocar sua, agora intercambiável, capacidade de trabalho — tanto manual como mental — por um salário. Como modelo heurístico geral, a noção de classe não se refere nem ao prestígio, nem a renda, nem sequer à divisão do trabalho, mas sim à posição estrutural assumida pelos indivíduos em relações de produção específicas. De forma bastante simples, no exemplo acima, um proletário é aquele que vende sua capacidade de produzir para sobreviver, enquanto um burguês é aquele que se apropria dessa capacidade como uma mercadoria para valorizar o capital. É claro que, mesmo admitindo que outras classes continuam a persistir ao lado dessas duas “classes puras” do modo de produção capitalista (Lukács, 2003, p. 156), continua sendo bastante óbvio que poucas encarnam perfeitamente esses papéis diametralmente opostos. Consequentemente, ao longo dos anos, houve muitas tentativas de matizar este entendimento de classe. Alguns, por exemplo, defendem a existência de distinções internas, ou melhor, de setores, dentro de cada classe. Outros veem a filiação como sendo determinada pelo grau com que os indivíduos — quase todos os quais incorporam, como se diz, de uma forma ou de outra, a totalidade da relação de classe do capital — tendem, tanto quantitativa como qualitativamente, para um ou outro polo deste espectro de classe (Gunn, 1987).
De acordo com essa variação, que foi popularizada em parte por Richard Gunn, embora muitos proletários se envolvam em comportamentos capitalistas, como no investimento de parte de sua renda em empresas, sua principal forma de reprodução continua a ser através da relação salarial. Essa perspectiva também tem sido adotada, embora de forma modificada, para ajudar a explicar por que trabalhadores industriais recém-proletarizados, em regiões onde a relação de capital ainda não se enraizou de fato, costumam regressar às suas comunidades camponesas na época de colheita. Nesse caso, é dito que esses proletários, ao continuarem a complementar sua reprodução com trabalho ocasional no campo, se tornam o elo de todo um conjunto de relações de produção em que uma delas normalmente é predominante (Wallerstein, 2021, p. 173–184). No entanto, quaisquer que sejam as diversas distinções que os teóricos possam fazer, classe significa aqui fundamentalmente uma categoria econômica.
Quanto à segunda concepção de classe, Marx diz o seguinte em A Ideologia Alemã: “Os indivíduos singulares formam uma classe somente na medida em que têm de promover uma luta contra uma outra classe; de resto, eles mesmos se posicionam uns contra os outros, como inimigos, na concorrência.” (Marx; Engels, 2007, p. 63). Nesse caso, não se é mais uma classe, mas apenas se torna uma; a classe não é determinada por uma posição, mas por um processo. O simples fato de um determinado grupo de indivíduos ser levado a desempenhar uma função comum já não é uma condição suficiente para sua constituição como classe; a classe só ocorre quando um aglomerado de indivíduos separados, que podem ou não assumir a mesma posição geral numa dada relação de produção, juntam-se para combater outra classe. A adesão a uma classe, de acordo com essa concepção, é determinada pelo partidarismo ativo, que implica frequentemente a adoção de uma perspectiva específica, numa dada luta. Portanto, nesse caso, classe significa a formação de um sujeito político.
Em ambos os casos podemos observar diversas similaridades constitutivas:
Classe como relação. A noção de classe é inseparável da noção de relacionalidade. Uma classe, quer seja entendida como uma categoria econômica ou como um sujeito político, só pode existir em relação a outra classe. O proletariado não surge de modo independente, apenas para ser colocado posteriormente numa relação com a burguesia; os dois, quase como gêmeos siameses, surgiram juntos no mesmo momento da história. Um não tem qualquer significado fora de sua relação com o outro.
Classe como luta. Uma vez que a relação de classe, baseada na exploração de uma classe por outra, é por definição assimétrica, o antagonismo é a sua caraterística definidora. As classes, como as primeiras páginas do Manifesto tentam deixar claro, não entram em luta umas com as outras, mas simplesmente são luta. Isto não significa, no entanto, que essa luta apareça sempre da mesma forma. Por vezes, assume a forma de simples atos como paralisações do trabalho, sabotagens ou pequenos roubos; outras vezes, irrompe numa insurreição que põe em causa a própria relação. Qualquer que seja a sua forma histórica, ela está sempre presente.
Classe como processo. As classes não entram na história completamente formadas, mas são antes o resultado de processos históricos concretos. Nunca deixam de mudar, mesmo quando as características invariantes do modo de produção que lhes deu origem se tornam definitivas. Cada classe está sempre envolvida num processo de reconstituição e desconstituição, de variação e transformação, de emergência ou desaparecimento. Embora isto seja certamente válido para ambas as concepções de classe, é reconhecidamente mais verdadeiro no que diz respeito à classe enquanto sujeito político. Nesta última concepção, o processo está situado no seu próprio núcleo. Nunca se pode apontar empiricamente para uma classe, como se poderia fazer no primeiro caso; em vez disso, diz-se que a classe existe exclusivamente no âmbito deste processo de constituição e desconstituição.
É aqui que se começam a ver mais nitidamente as diferenças entre estas duas concepções. De fato, olhando numa segunda vez, pode até parecer que as duas estão em total contradição. No primeiro caso, qualquer grupo de indivíduos, independentemente de se juntarem ou não em luta, ou de se oporem simplesmente uns aos outros como concorrentes hostis, pode constituir uma classe caso se possa demonstrar que todos eles assumem a mesma posição relativa numa dada relação de produção. A segunda conceitualização, no entanto, nega explicitamente a esse agrupamento a honra de ser chamado classe; em vez disso, são simplesmente um conjunto de concorrentes. Somente após transcenderem as suas particularidades divisórias, forjando-se numa associação destinada a lutar contra outra classe, é que se pode dizer que constituíram, verdadeiramente, uma classe.
Para complicar ainda mais a situação, Marx não só utiliza estas definições em conjunto, como emprega frequentemente o mesmo conjunto de termos em ambas as concepções. Por exemplo, em vez de utilizar o termo “classe operária” para se referir à classe enquanto categoria econômica e “proletariado” para se referir à classe enquanto sujeito político, Marx utiliza proletariado para se referir a ambas, ou por vezes classe operária para se referir a ambas, introduzindo imediatamente um conjunto de questões bastante espinhosas. Será que um policial que veste a sua farda de choque para esmagar uma manifestação, por exemplo, é um membro do proletariado? Se definirmos um proletário como um trabalhador que vende a sua força de trabalho a troco de um salário, então poderíamos facilmente responder afirmativamente; mas se definirmos um proletário como alguém que se junta, de acordo com um interesse semelhante, a outros numa luta contra outra classe, então não podemos.
Reconhecendo esta ambiguidade, muitos comentadores optaram por afirmar uma destas definições em detrimento da outra, em vez de explorarem as formas possíveis de as colocar numa espécie de relação dinâmica. A classe como categoria econômica inspirou teóricos como Kautsky; a classe como sujeito político inspirou teóricos como Debord.
Tomada isoladamente, considerar a classe como categoria econômica tem certamente a vantagem de fundamentar a luta nas condições materiais de uma conjuntura historicamente específica. Consequentemente, a contestação política está sempre ancorada no processo de valorização, o qual reafirma a implicação recíproca do capital e do trabalho. Mas esta vantagem pode muito rapidamente tornar-se uma desvantagem, porque muitas vezes força as lutas — particularmente aquelas que não parecem seguir padrões previstos — a categorias pré-fabricadas. Esta tendência para o economicismo traduz-se, portanto, numa incapacidade geral de compreender a singularidade das diferentes formas de luta. Isto pode ser claramente visto, por exemplo, na incapacidade da Comintern para compreender o significado das peculiares revoltas, predominantemente camponesas, na China durante a segunda e terceira décadas do século XX (Stalin, 2011). É também evidente nos debates sobre a natureza das rebeliões estudantis que tiveram lugar nas décadas de 1960 e 1970 (Gorz, 1971, p. 104–106; Mallet, 1975). São elas proletárias? Se não, como os membros de uma outra classe, enraizados como estão num modo de produção histórico, podem, por assim dizer, mudar de campo e, como Marx e Engels sugerem no Manifesto, tornarem-se eles próprios efetivamente proletários (Marx; Engels, 1998, p. 49)?
O entendimento da classe como um sujeito político parece mais apropriado para dar uma resposta adequada a estas questões. Neste caso, a classe já não está ligada a determinadas posições nas relações de produção de uma dada conjuntura histórica, mas significa antes um processo de subjetivação através da articulação de oposições. De acordo com estes critérios, qualquer pessoa pode participar na constituição de qualquer classe. Auguste Blanqui ilustra este fato durante o seu famoso julgamento em 1832. Após o juiz ter-lhe pedido que declarasse a sua profissão, Blanqui — que, segundo ele próprio, era um membro da burguesia — respondeu triunfantemente: “Proletário”. Quando lhe disseram que “proletário” não era uma profissão, respondeu rapidamente: “É a profissão de trinta milhões de franceses que vivem de seu trabalho e que são privados de seus direitos políticos” (Blanqui, 1993, p. 186). Blanqui não só se junta a uma classe à qual não pertence — no sentido de uma categoria econômica — como, ao falar no tribunal da classe oposta, anuncia paradoxalmente a própria formação dessa classe (Rancière, 2021, p. 49–50).
A declaração de oposição torna-se, assim, a criação de uma classe que nunca existiu antes.
Mas, tal como acontece com a outra concepção de classe acima discutida, os pontos fortes desta tornam-se facilmente os seus pontos fracos. Ao afrouxar, e por vezes até cortar, a relação entre uma classe e as correspondentes condições materiais de produção, o conceito tende a tornar-se a-histórico. Diz-se que as classes surgem e desaparecem sempre que um segmento de uma comunidade social — quer se trate da Grécia Antiga ou da França moderna — privado de um ou outro direito se transforma num sujeito, articulando a sua oposição, o que leva alguns teóricos a fazer afirmações palpavelmente absurdas, como a de que as mulheres ou pessoas negras constituem uma classe.
Outros teóricos, no entanto, tentaram, seguindo o próprio Marx, colocar estas diferentes concepções numa espécie de relação, em vez de separar à força uma da outra. Por sua vez, Marx, que certamente estava consciente desta ambiguidade, embora não necessariamente da contradição que se movia no cerne do seu conceito de classe, tentou em diversos momentos clarificar a sua posição, mais notadamente em A Miséria da Filosofia:
A grande indústria aglomera num mesmo local uma multidão de pessoas que não se conhecem. A concorrência divide seus interesses. Mas a manutenção do salário, o interesse comum que elas têm contra o patrão, reúne-as num mesmo pensamento de resistência–coalizão. A coalizão, pois, tem sempre um duplo objetivo: fazer cessar entre elas a concorrência, para poder fazer uma concorrência geral ao capitalista. Se o primeiro objetivo da resistência é apenas a manutenção do salário, à medida que os capitalistas se reúnem num mesmo pensamento de repressão, as coalizões, inicialmente isoladas, agrupam-se e, em face do capital sempre reunido, a manutenção da associação torna-se mais importante para elas que a manutenção do salário. Isso é tão verdadeiro que os economistas ingleses assombram-se ao ver que os operários sacrificam boa parte do salário em defesa das associações que, para esses economistas, só existem em defesa do salário. Nessa luta — verdadeira guerra civil —, reúnem-se e desenvolvem-se todos os elementos necessários a uma batalha futura. Uma vez chegada a esse ponto, a associação adquire um caráter político…
As condições econômicas primeiro transformaram a massa do país em trabalhadores. A dominação do capital criou para essa massa uma situação comum, interesses comuns. Assim, essa massa já é uma classe em relação ao capital, mas não o é ainda para si mesma. Na luta, da qual assinalamos apenas algumas fases, essa massa se reúne, se constitui em classe para si mesma. Os interesses que defende se tornam interesses de classe. Mas a luta entre classes é uma luta política (Marx, 2017, p. 179–180)].
Nesta passagem, Marx tenta conciliar as suas duas concepções de classe. Ele começa por considerar a classe, antes de mais nada, como uma categoria econômica: um determinado modo de produção assume, num momento específico, um determinado conjunto de caraterísticas, neste caso, a combinação de trabalhadores previamente separados com o objetivo de extrair mais eficientemente o seu tempo de mais-trabalho. Estes indivíduos formam uma classe porque partilham uma posição estrutural semelhante na relação de capital existente nesse momento histórico. Marx prossegue discutindo como, dada a situação em que esses trabalhadores se encontram, eles começam a usar as caraterísticas particulares dessa forma histórica da relação de produção para gerar formas específicas de luta, neste caso, a associação. A sua luta, que estava efetivamente latente, mas que agora se manifesta, assume um caráter político porque a competição entre trabalhadores individuais se torna uma competição geral — até mesmo uma guerra civil — entre todos os trabalhadores de um lado contra todos os capitalistas do outro. É então apenas neste momento que se diz que o proletariado se torna uma classe no segundo sentido do termo, ou seja, um sujeito político. Marx mostra, então, como os dois estão, apesar das aparências, intrinsecamente ligados: uma classe como categoria econômica formal gera o campo de possibilidade que determina as formas políticas que uma classe como sujeito político pode assumir.
2. Consciência de Classe
No último parágrafo daquela famosa passagem de A Miséria da Filosofia, Marx nomeou os momentos distintos do proletariado como classe: no primeiro, o proletariado como categoria econômica é definido como uma “classe contra o capital”; no segundo, o proletariado como sujeito político torna-se uma “classe-para-si”. Embora a oposição implícita na passagem original de Marx, “une classe vis-à-vis du capital, mais pas encore pour elle-même”, tenha sido preservada, os termos específicos nela contidos acabaram por ser transformados num dialeto mais familiar. No século XX, a dicotomia entre “classe contra o capital” e “classe-para-si” tornou-se efetivamente a dicotomia entre “classe-em-si” e “classe-para-si”.
A distinção entre “em-si” e “para-si”, que, note-se, nunca foi empregada pelo próprio Marx ao discutir a classe, tem origem em G. W. F. Hegel (Andrew, 1983, p. 577)]. Embora tenha vários significados, refere-se muito simplesmente ao movimento da potencialidade para a atualidade (Inwood, 1997, p. 109–112). Uma bolota, gostava Hegel de dizer, era um carvalho em-si, mas ainda não para-si. O carvalho era apenas a realização das tendências já presentes na bolota. Mas, como Hegel por vezes esclareceu, especialmente quando considerava sujeitos conscientes, porque uma coisa só pode tornar-se uma coisa em relação a outras coisas, uma potencialidade só se atualiza através do reconhecimento consciente dessas relações já implícitas. Uma criança, para usar outro exemplo do qual Hegel gostava muito, é racional em-si mesma, mas não para-si mesma, precisamente porque, ao contrário do adulto em que se tornará, ainda não reconhece a sua racionalidade. A partir daqui, poder-se-ia presumir que a criança só se torna adulta quando finalmente toma consciência do fato de que é racional. O movimento do “em-si” ao “para-si” é, portanto, de acordo com uma leitura possível, determinado em última instância pela questão da consciência.
Este modelo conceitual foi rapidamente aproveitado como o principal meio para conciliar de forma produtiva as ambiguidades inerentes à concepção marxiana de classe. A classe como categoria econômica foi rebatizada como “a classe-em-si”, enquanto a classe como sujeito político se tornou “a classe-para-si”. Seguindo grosso modo Hegel, os teóricos marxistas resolveram todo o enigma transformando a segunda na atualização da potencialidade representada pela primeira: tal como a criança acaba por se tornar um adulto racional precisamente porque já é implicitamente esse adulto, também o proletariado se torna o sujeito político que abolirá o capitalismo precisamente porque é, em virtude da sua posição antagônica dentro de um modo de produção explorador, já essa potencial abolição enquanto categoria econômica. E, tal como a criança só se torna realmente adulta ao tomar consciência da sua racionalidade, também os teóricos argumentam que uma classe-em-si só poderá se tornar uma classe-para-si ao desenvolver aquilo a que chamam consciência de classe.
O conceito de consciência de classe refere-se geralmente ao processo através do qual se forja uma identidade de interesses entre indivíduos anteriormente díspares em relação a outros. Alguns pensadores limitaram-na à consciência de tarefas políticas concretas. Outros tratam a consciência de classe como uma compreensão mais geral da “situação de vida” do proletariado (Ollman, 1968, p. 579). Outros ainda a alargaram de modo a abranger a percepção ainda mais ampla do próprio processo histórico total (Lukács, 2003). No entanto, quaisquer que sejam as nuances semânticas, todos os teóricos que trabalham com este modelo situam o conceito como a pedra angular de toda a problemática da classe-em-si e da classe-para-si. É a consciência de classe que permite que uma classe se torne uma classe. Antes disso, existem apenas concorrentes divididos que, por terem sido separados pelas suas diversas profissões, etnias, religiões e outras afiliações semelhantes, são incapazes de pensar coletivamente sobre experiências que são fundamentalmente semelhantes. A consciência de classe, entendida em sentido geral, é o processo através do qual estas experiências, em grande medida determinadas pelas relações de produção em que os trabalhadores nasceram, são estrategicamente retrabalhadas, apropriadas e articuladas em termos políticos. A seguinte passagem de A Formação da Classe Operária Inglesa, talvez uma das obras mais famosas a adotar implicitamente este modelo, resume muito bem o processo:
Contudo, uma vez tomadas todas as precauções necessárias, o fato relevante do período entre 1790 e 1830 é a formação da “classe operária”. Isso é revelado, em primeiro lugar, no crescimento da consciência de classe: a consciência de uma identidade de interesses entre todos esses diversos grupos de trabalhadores contra os interesses de outras classes. E, em segundo lugar, no crescimento das formas correspondentes de organização política e industrial. Por volta de 1832, havia instituições de classe operário solidamente fundadas e autoconscientes — sindicatos, sociedades de auxílio mútuo, movimentos religiosos e educativos, organizações políticas, periódicos — além das tradições intelectuais, dos padrões comunitários e da estrutura da sensibilidade da classe operário (Thompson, 1987, p. 17).
Thompson, ao recodificar a consciência de classe numa linguagem enfaticamente cultural, foi talvez o que mais contribuiu para realçar os potenciais pontos fortes do modelo. Para começar, mostrou como o modelo pode efetivamente restaurar a agência proletária, mantendo a importância das relações de produção “objetivas”. Se os sujeitos políticos não podem ser reduzidos a categorias econômicas, então as classes não podem surgir automaticamente das relações de produção. Em vez disso, os trabalhadores individuais transformam-se conscientemente num único sujeito político a partir de uma categoria econômica, ressuscitando, reanimando e reorientando estrategicamente as suas heranças culturais, experiências comuns e tradições partilhadas. É precisamente através da reformulação dos trabalhadores como sujeitos racionais envolvidos em decisões estratégicas deliberativas que o modelo pode, nas palavras de Thompson, mostrar como “A classe operária formou-se a si própria tanto quanto foi formada” (Thompson, 1987, p. 18).
Além disso, o modelo demonstra como o movimento da categoria econômica para o sujeito político se estende muito para além da economia e da política; implica a mobilização de uma pluralidade de vários determinantes — a língua, a nacionalidade e, mais importante, a própria cultura — que podem inicialmente parecer estar fora da classe. O modelo mostra como a formação da classe envolve, de fato, toda uma constelação de mediações que se intersectam, como a classe representa uma experiência cultural alargada ou, para usar as palavras de Raymond Williams, “todo um modo de vida” (Williams, 2011, p. 20).
Por último, o modelo, especialmente nas mãos de Thompson, permite reconhecer continuidades numa luta de classes em mudança. As novas formas de produção não eliminam as antigas formações de classe substituindo-as por outras inteiramente novas; as classes são formações históricas em que os passados culturais são preservados à luz de condições históricas alteradas. Como escreveu Ellen Meiksins Wood: “as determinações objetivas — a transformação das relações de produção e das condições de trabalho — nunca se impõem a uma matéria-prima indiferenciada e indescritível da humanidade, mas a seres históricos, portadores de legados históricos, tradições e valores” (Wood, 1982, p. 58). A memória, as tradições e os vestígios culturais realçam a historicidade verdadeiramente complicada da formação de classes.
Mas, embora o modelo da classe-em-si e da classe-para-si tenha aparentado ser bastante produtivo, ele tem, no entanto, algumas fraquezas. Em primeiro lugar, o conceito de consciência de classe sublinha um período de maturação particularmente longo antes de se poder dizer que uma classe emergiu definitivamente como sendo ela própria. Thompson, por exemplo, afirma que esse processo demorou quase cinquenta anos no contexto inglês. A dificuldade aqui, evidentemente, é que, por vezes, uma classe pode transformar-se num sujeito político em talvez um mês, ou mesmo em menos de uma semana, e sem nunca elaborar quaisquer organizações formais, sejam elas sindicatos, sociedades de amigos ou mesmo partidos políticos. Este modelo, precisamente porque dá muito peso à dimensão cultural, é muitas vezes incapaz de lidar com mudanças rápidas no comportamento das classes. Isto é mais evidente quando se examina o reverso do processo: a desestruturação da classe operária. Embora Thompson deixe certamente essa possibilidade em aberto, também a deixa muito pouco teorizada. Parte desta dificuldade está implícita nas próprias analogias com base nas quais o modelo da classe-em-si e da classe-para-si foi historicamente construído. De fato, não é outro senão o próprio Thompson que tenta dar sentido a este processo histórico, comparando-o à passagem da criança ao adulto: “Este livro pode ser visto como uma biografia da classe operária inglesa, desde a sua adolescência até o início da sua idade adulta” (Thompson, 1966, p. 11)2. O problema, evidentemente, é que os adultos raramente se decompõem em adolescentes, que foi precisamente o que aconteceu à classe operária inglesa pouco depois do período que Thompson discute.
Em segundo lugar, o modelo é largamente idealista. Embora esteja sempre ligado a processos materiais, o conceito de consciência de classe refere-se essencialmente à mente. Uma classe só se torna para si própria quando os seus futuros membros começam finalmente a pensar em si mesmos como uma classe. O momento decisivo é, portanto, sempre uma mudança de pensamento, uma mudança de percepção ou a adoção de novas atitudes. Uma consequência de uma ênfase tão grande na cerebração é a tendência em reduzir um processo dialético a um processo de causalidade estritamente mecânica. Gilles Dauvé observou este perigo na Internacional Situacionista:
Para Lukács justificar o partido é secundário; o mais importante é o idealismo da consciência, a preponderância atribuída à consciência, da qual o partido é apenas uma manifestação. O essencial em sua teoria é que a consciência deve estar incorporada em uma organização. A Internacional Situacionista assumiu de forma acrítica a teoria lukacsiana da consciência, mas colocando no lugar do “partido” a própria Internacional Situacionista por um lado e os conselhos por outro. Para a Internacional Situacionista, assim como para Lukács, a diferença entre “classe em-si” e “classe para-si” é que esta última possui a consciência de classe. Que esta consciência não seja injetada de fora por um partido, mas que surja espontaneamente da organização dos operários em conselhos, é algo secundário. A Internacional Situacionista se concebia a si mesma como uma organização destinada a implantar a verdade: seu princípio de ação era a revelação (Dauvé, 2021, p. 70).
Embora Dauvé vise especificamente aqueles que se inspiram na obra de György Lukács, a sua crítica aplica-se de fato ao próprio modelo. Defender que o proletariado deve alcançar a consciência de classe de modo a tornar-se uma classe-para-si próprio é afirmar implicitamente que o proletariado deve primeiro alcançar uma compreensão clara da sua “situação de vida” antes de poder fazer a revolução. Como Dauvé parece sugerir, pouco importa se essa consciência vem de fora, como na teoria Leninista do partido de vanguarda, ou de dentro, como na teoria do conselho exposta por pessoas como Rühle, Pannekoek ou Debord. Em ambos os casos, diz-se que a luta revolucionária é o efeito de uma consciência própria e a organização revolucionária é vista como a mera encarnação dessa consciência. O fracasso de tal consciência é então convenientemente atribuído ao labirinto teórico conhecido como “falsa consciência”.
Em terceiro lugar, e isto é em função direta do seu idealismo inerente, o modelo dá um espaço demasiado grande à cultura. O casamento da consciência com a experiência cultural conduz necessariamente à exclusão daqueles que não partilham esse modo de vida particular. Por outras palavras, se uma experiência cultural partilhada é colocada como o eixo sobre o qual gira a formação da classe, então o que acontece aos trabalhadores que nunca fizeram parte dessa experiência, ou àqueles que, por uma série de razões, nunca poderão participar nela? É precisamente por isso que Thompson, por exemplo, não pode alargar a sua análise aos trabalhadores da Irlanda ou aos antigos escravos das várias colônias do Império Britânico. A focalização nas experiências quase o obriga a reproduzir uma espécie de nacionalismo provinciano inglês em que a classe operária só pode emergir como sujeito político limitado a um espaço cultural e demográfico claramente delineado.
Por último, e isto decorre em parte dos comentários feitos acima, o modelo de consciência de classe associa a formação da classe à emergência de experiências de classe comuns de uma forma que tende a ignorar a especificidade estrutural das posições de classe. Como Stuart Hall escreveu celebremente:
Se a consciência de classe é, ela própria, um processo histórico e não pode ser simplesmente derivada da posição econômica dos agentes de classe (um marxismo verdadeiramente não-redutivo), então todo o problema da política marxista está preso nas ligações relacionadas, mas não necessariamente correspondentes, entre a classe-em-si e a classe-para-si. Resolver ambas na categoria abrangente de “experiência” é implicar — apesar de todas as complexidades de qualquer análise particular — que “a classe” está sempre realmente no seu lugar, pronta, e pode ser convocada “para o socialismo” (Hall, 2021, p. 279).
A atenção dada à consciência de classe em geral — e à “experiência” em particular — leva muitas vezes a ver a classe em todo o lado, sempre já constituída, simplesmente à espera de ser redescoberta. As dimensões estruturais da classe — a forma como as classes são historicamente condicionadas pelas relações de produção antagônicas entre capital e trabalho — podem ser completamente esquecidas, ou pior, congeladas num estado de fixidez anacrônica. De fato, foi precisamente isto que aconteceu à maioria dos partidos comunistas no período do pós-guerra: continuaram a propagar o mito do proletariado, negligenciando simultaneamente as mudanças muito reais que ocorriam dentro e fora da fábrica, perdendo efetivamente o contato com muitos setores desta classe. Aprender com o primeiro volume de O Capital que o proletariado é sempre implicitamente revolucionário devido à sua posição no modo de produção capitalista parecia ser suficiente; não havia mais necessidade de reexaminar quaisquer mudanças na especificidade histórica da exploração. Isto obrigou muitos dos que ainda se preocupavam com o conceito de classe — como os que estavam associados ao Socialismo ou Barbárie em França, à tendência Johnson-Forest nos Estados Unidos e, influenciados por ambos, os operaístas italianos — a começar do zero, voltando ao local de trabalho para reconstruir uma teoria viável a partir do ponto inicial. Acabaram por avançar com um modelo completamente novo.
3. Composição de Classe
Convencidos de que os conceitos herdados já não conseguiam dar conta das transformações estruturais sem precedentes que ocorriam no seu país, toda uma geração de marxistas italianos começou a repensá-los sistematicamente no final dos anos 50 e nos anos 60, começando, antes de mais nada, pela classe. Embora ainda se falasse de classe, ninguém mais sabia ao certo o que o termo significava realmente. Mario Tronti, um dos mais proeminentes teóricos da época, comentaria incisivamente: “Ninguém descobriu mais nada sobre a classe operária depois de Marx; continua a ser um continente desconhecido. Sabe-se com certeza que ela existe, porque toda a gente já ouviu falar, e qualquer pessoa pode ouvir fábulas sobre ela. Mas ninguém pode dizer: eu vi e compreendi” (citado em Wright, 2002, p. 76).
A vontade de se apropriar criticamente dos desenvolvimentos recentes da sociologia (Panzieri, 2025), a par de uma reavaliação da crítica à economia política de Marx e, sobretudo, a convicção de aprender com os próprios trabalhadores, levou alguns destes teóricos a regressar à fábrica e a realizar entrevistas, a estudar as condições técnicas de produção e a investigar os vários padrões de atividade proletária autônoma. Este trabalho empírico, que em muitos aspectos concretizou o programa de investigação operária que Marx imaginou pouco antes da sua morte (Marx, 2022, p. 141–150), teve como pioneiro os relatórios de Romano Alquati sobre a FIAT e, mais tarde, sobre a Olivetti. Apesar de nunca ter utilizado o termo, foi a partir destes estudos que a noção de composição de classe acabaria por emergir (Wright, 2002, p. 49).
Como Sandro Mezzadra recordou numa entrevista recente, o modelo de composição de classe substituiu efetivamente todo o modelo da classe-em-si e da classe-para-si:
A categoria de composição de classe foi desenvolvida no interior do operaísmo, de certa forma, em oposição à ideia de consciência. Poder-se-ia dizer que a relação entre a composição técnica e a composição política da classe substituí, de certo modo, a relação tradicional entre “classe-em-si” e “classe-para-si” — isto é, a relação que, no marxismo clássico, abre espaço para a consciência de classe e para o partido como sujeito separado. (Mezzadra; Colectivo Situaciones, 2005)3.
Em vez de olhar para a relação entre uma potencialidade inconsciente e uma atualidade consciente, o modelo de composição de classes tira partido do duplo significado da palavra para traçar a correlação entre a forma como uma classe é composta, ou como é materialmente constituída, e a forma como a classe compõe a si própria, ou como combina ativamente as diferentes partes de si mesma para construir um todo. Tal como uma recente reavaliação desta teoria o afirmou, a afirmação central da composição de classes é a existência de uma “coerência entre a forma de produção e as formas de luta” (Kolinko, 2001):
Os operários não lutam juntos por causa da consciência de que “são todos explorados”. As lutas dos proletários surgem de condições de trabalho concretas, de reais situações de exploração. As lutas dos proletários assumem diferentes formas (no passado, em diferentes regiões ou setores, etc.), porque o processo de trabalho concreto e, por esta razão, as situações de exploração se diferenciam. O modo de produção e a posição no processo social de produção determinam a forma e as possibilidades da luta… (Ibid.)
Neste modelo, a classe enquanto categoria econômica é reformulada como a composição técnica da classe e a classe enquanto sujeito político como a composição política da classe. A composição técnica refere-se às formas particulares como a força de trabalho é dividida, gerida e, em última análise, explorada. Por conseguinte, diz respeito não só ao processo imediato de produção — onde esta mercadoria é diretamente explorada — mas também ao mundo exterior à fábrica, onde tem de ser continuamente reproduzida para ser reapropriada no dia seguinte. A composição política refere-se às formas particulares como os proletários, enquanto vendedores dessa força de trabalho, se apoderam das caraterísticas deste modo de produção para superar a sua divisão, gestão e, em última análise, a sua exploração. O processo de decomposição é, portanto, a forma como uma classe se decompõe e pode referir-se tanto à reestruturação técnica de uma categoria econômica como à derrota sofrida por um sujeito político. Da mesma forma, o processo de recomposição é a forma como a classe se reconstrói e, do mesmo modo, pode referir-se tanto à reconstituição de uma categoria econômica como à reemergência de um sujeito político relacionado com, embora distinto de, o que foi derrotado no ciclo anterior.
O central deste modelo é a rejeição da consciência de classe como o elo que liga os dois aspectos da classe. De acordo com este modelo — que parece ser apoiado pelo fato revelador de que o próprio Marx, na sua famosa passagem de A Miséria da Filosofia, tantas vezes invocada no discurso sobre a classe, nunca mencionou o conceito de consciência de classe — os proletários não se formam num sujeito político porque um dia atingem a tão esperada consciência de que os seus interesses ostensivamente distintos são na realidade um e o mesmo; Fazem-no porque a composição técnica do capital contra o qual todos eles lutam nesse momento histórico proporcionou, ela própria, as condições materiais através das quais as suas lutas pela realização das suas necessidades materiais imediatas podem ser estrategicamente consolidadas. Enquanto o modelo da consciência de classe era considerado largamente idealista, o da composição de classe procurava ser rigorosamente materialista.
Sergio Bologna, um notável trabalhador que uma vez se referiu ao conceito de composição de classe como a “chave mestra que abre todas as portas” (Bologna, 2010 (1977) ), pôs este modelo em prática numa conferência de 1967, reescrevendo efetivamente a história do movimento conselhista alemão. Após fazer um levantamento da geografia industrial da Alemanha na viragem do século, ele demonstrou como as formas particulares de exploração da mão de obra na produção industrial levaram à adoção do conselho como forma de luta por aqueles cuja força de trabalho estava sendo explorada. Os proletários alemães empregados nas indústrias dominantes de produção especializada de máquinas-ferramentas, eletromecânica e ótica eram todos experientes e altamente qualificados; devido à sua grande familiaridade com a natureza especializada destas indústrias, já desempenhavam funções de gestão que lhes permitiam participar diretamente no processo de produção. Esta composição técnica tão ligada a uma forma de trabalho colaborativa, profissional e particularmente especializada, continua o autor, conduziu, sem surpresa, a uma composição política que favorecia predominantemente a forma de conselho, especialmente em regiões como Wittenberg, Berlim e Saxónia, dominadas pelas indústrias acima mencionadas:
O conceito de autogestão operária não poderia ter tido um apelo tão forte para o movimento de conselhos operários alemão sem a presença de uma força de trabalho intrinsecamente ligada à tecnologia dos processos de trabalho, com um forte sentimento de valores profissionais e naturalmente inclinados a dar um alto valor a sua função como “produtores”. O conceito de controle operário como um sistema de administração era um conceito que via o operário como um produtor autônomo, e a força de trabalho da fábrica como uma entidade autossuficiente. Ele só via a relação entre os operários e empregadores individuais ou companhias, e — como veremos — ele desconfiava da “política” em um sentido amplo, i.e. a relação entre organização e poder, partido e revolução (Bologna, 2016).
Essa composição política influenciaria as próprias formas como esses proletários viriam a compreender o conteúdo da revolução ou, por outras palavras, o próprio comunismo. A implicação radical é que as diferentes composições técnicas na Alemanha e, digamos, na Rússia, conduziram necessariamente a diferentes concepções do projeto comunista. Como escreve Bologna, “Rosa [Luxemburgo] e Lênin falavam para dois tipos diferentes de classe operária: eles falavam contra tipos diferentes de reformismo” (Bologna, 2016). Poder-se-ia acrescentar: eles também lutaram, devido a condições históricas diferentes, por dois tipos diferentes, embora igualmente válidos, de comunismo.
O modelo de composição de classes, portanto, evita os perigos do anacronismo ao insistir enfaticamente na especificidade histórica de todas as lutas: tal como a exploração capitalista varia de conjuntura histórica para conjuntura histórica, também a forma e o conteúdo, correspondentes da luta para abolir essa exploração devem variar. Como disseram uma vez Silvia Federici e Mario Montano, escrevendo sob o pseudônimo Guido Baldi, o “carácter revolucionário de todas as lutas dos trabalhadores deve ser sempre mensurado em termos da sua relação com o projeto dos capitalistas” (Federici; Montano, 2017). Deste modo, toda a conversa sobre revolução é imediatamente re-situada dentro de um conjunto específico de relações históricas; revigorando corajosamente a afirmação de Marx e Engels de que o comunismo é um movimento real e não simplesmente um Estado de coisas para o qual a realidade terá de se adequar (Marx; Engels, 2007, p. 38). O comunismo não é um programa, mas um processo historicamente determinado cujo conteúdo, porque sempre variante, só pode ser compreendido relacionando-o com a relação particular entre uma composição específica de classe técnica e uma composição específica de classe política.
4. Reflexões sobre um conceito
Talvez a crítica mais comum ao modelo de composição de classe tenha menos a ver com o conceito em si do que com as formas em que tem sido tradicionalmente empregue. Os operaístas italianos, como foi dito, tendiam a homogeneizar excessivamente, por um lado, um determinado conjunto de relações de classe e, por outro, os períodos históricos do modo de produção capitalista. Uma conjuntura histórica é sempre marcada por uma multiplicidade de formas diferentes de produção de mais-valia: algumas indústrias empregam certos processos que outras não empregam; algumas parecem bem adaptadas a um conjunto de inovações técnicas, enquanto outras podem basear-se em técnicas diferentes; algumas parecem particularmente dinâmicas, enquanto outras figuram como remanescentes do período anterior. Como consequência direta destas diferentes composições, haverá sempre uma pluralidade de formas de luta, que, embora certamente relacionadas, permanecem, no entanto, distintas. Mas como o próprio modo de produção capitalista parece privilegiar certas indústrias em determinados momentos do seu desenvolvimento, segue-se, argumentavam os operaístas, que os trabalhadores empregados nessas indústrias privilegiadas constituirão normalmente o segmento central e, portanto, dominante, da sua classe. Como afirmou Raniero Panzieri, “[…] a força subversiva da classe operária, a sua capacidade revolucionária, apresenta-se (potencialmente) mais forte precisamente nos ‘pontos em desenvolvimento’ do capitalismo, onde a relação opressora do capital constante sobre o trabalho vivo — com a racionalidade incorporada ao primeiro — põe imediatamente, à classe operária, a questão da sua escravidão política.” (Panzieri, 2016). Na Itália do pós-guerra, quando Panzieri escrevia, os “pontos de desenvolvimento” eram as grandes fábricas de automóveis no Norte; a figura de classe correspondente era o trabalhador em massa: não qualificado, jovem, recentemente emigrado do Sul, e geralmente do sexo masculino.
Os operaístas italianos, que procuravam a figura que levaria toda a classe à revolução, passaram a mobilizar o conceito de composição de classe de uma forma que quase miopicamente promoveu este segmento supostamente dominante à figura típica do proletariado como um todo. Embora certamente conhecedores de outras formas de produção e, portanto, de outras seções do proletariado, os operaístas tendiam, no entanto, a subsumi-las à figura do operariado de massas que, devido ao alegado dinamismo, importância estratégica e antagonismo estrutural da sua composição técnica particular, se dizia ser a vanguarda de classe desse ciclo de lutas (Bologna, 2010 (1974) ). Mesmo Bologna, que na sua reconstrução histórica do movimento dos conselhos alemães se manteve atento a outros setores de produção para além dos que acabaram por gerar os conselhos, não conseguiu considerar as secções da classe — como os mineiros do Ruhr — que geraram diferentes formas de luta. Isto é especialmente confuso, uma vez que o próprio Bologna designou estes mineiros como o setor avançado da classe na altura (Bologna, 2016).
O que está em causa é, por um lado, a própria noção de centralidade e, por outro, uma compreensão coerente da forma como as lutas circulam de loja em loja, de indústria em indústria, e mesmo de nação em nação. Será que um determinado setor da classe é considerado central por ser o mais numeroso, ou por estar empregado nas indústrias mais lucrativas? Será por causa da frequência ou militância das suas lutas, ou talvez porque a natureza específica da sua relação estrutural com o capital parece delinear os contornos gerais do ciclo de luta mais alargado? É possível antecipar essa centralidade ou ela só se torna aparente após o fato? Há normalmente apenas um centro ou pode haver uma pluralidade de centros? Se for esta última hipótese, como eles se relacionam? Se aceitarmos a presença de uma tal pluralidade de lutas, quer algumas sejam ou não consideradas centrais, então temos necessariamente de examinar como é que todas elas, apesar da sua notória heterogeneidade, se fundem inevitavelmente no decurso do seu desenvolvimento contínuo. Será que esta fusão ocorre quando estas outras secções, talvez mesmo subordinadas, aceitam de alguma forma a hegemonia da figura central? Ou será que cada seção se reapropria das lutas circulantes das outras para os seus próprios fins específicos? Será que esta heterogeneidade se mantém mesmo após uma generalização da luta? Como é que essa circulação se manifesta a nível internacional, especialmente se considerarmos o desenvolvimento desigual da produção capitalista numa escala global?
A dificuldade intimamente relacionada é a tendência geral para periodizar apressadamente o modo de produção capitalista, desenhando presunçosamente uma série de rupturas abruptas. Sempre à procura do momento de descontinuidade, muitos operaístas foram levados a ignorar os resquícios, os acréscimos e as formações de sobrevivência ainda presentes na conjuntura histórica alterada, optando, em vez disso, por ver a história da luta de classes como uma sequência mais ou menos claramente marcada de figuras paradigmáticas. Assim, diz-se que o trabalhador profissional deu lugar ao trabalhador de massas que, por seu lado, acabou por ser ultrapassado pelo trabalhador social (Hardt; Negri, 2001, p. 432–434; Negri, 1988) ou pelo operário disseminado (Bologna, 2017), dependendo de quem lê.
As conjunturas históricas, no entanto, não eliminam tudo o que as precedeu, mas parecem construir o passado de formas peculiares. A decomposição de um certo tipo de figura de classe não é sinônimo da sua desintegração absoluta. Continuamos a detectar uma determinada composição técnica mesmo depois de ter sido substituída por outra: as suas caraterísticas específicas, o seu papel e a sua relação com o capital terão, sem dúvida, mudado, mas persistem. O mesmo se pode dizer das formas de luta corporizadas, como do partido comunista. O PCI, por exemplo, continuou a expandir-se apesar de a sua ligação orgânica às massas trabalhadoras, a figura que afirmava representar, ter sido claramente cortada (Sassoon, 1981, p. 203). Talvez não seja coincidência o fato de, na sua maioria, os operaístas que escolheram empunhar a arma da composição de classes de forma tão inflexível não conseguirem simplesmente compreender o papel do PCI na sociedade italiana do pós-guerra. Incapazes de explicar o seu carácter mutável nestas circunstâncias alteradas, muitos membros proeminentes desta corrente, incluindo Mario Tronti, Asor Rosa e outros, optaram simplesmente por voltar a juntar-se ao partido, apesar das suas práticas claramente contra-revolucionárias.
Mas enquanto algumas críticas — nomeadamente a da supergeneralização — visam em grande medida apenas os usos operaístas da composição de classes, outras tentaram pôr em causa o próprio modelo. A maior parte delas chama a atenção para o fato de, com muita frequência, se dar primazia causal à composição técnica sobre a política. Como afirmou Steve Wright: “Outra das fraquezas mais óbvias do operaísmo italiano — mas que dificilmente se pode dizer que tenha monopolizado — seria um enfoque demasiado limitado naquilo a que Marx chamou o processo imediato de produção como a fonte essencial da experiência e da luta da classe trabalhadora” (Wright, 2002, p. 225). Diz-se por vezes que os operaístas estavam demasiado prontos a explicar todos os comportamentos proletários recorrendo imediatamente à composição técnica da força de trabalho no momento da produção. Existe então o perigo de ver a composição política como um simples resultado orgânico, quase necessário, se não mesmo inevitável, da composição técnica. O político, portanto, ameaçaria tornar-se meramente epifenomenal.
Em primeiro lugar, se é verdade que o modelo de composição de classes pode ser utilizado de forma a reduzir a composição da classe política a uma mera consequência de uma dada composição técnica, deve notar-se que o modelo nunca afirmou que um modo de produção determina mecanicamente todas as escolhas que os membros de uma classe têm de fazer, mas apenas que esse modo de produção gera o campo de possibilidades historicamente determinado dentro do qual podem atuar. Deste modo, assiste-se a uma espécie de disjunção entre os dois momentos: nunca há um reflexo automático entre um modo de exploração específico e uma forma de luta, mas apenas uma relação estreita. Neste sentido, abre-se um espaço para esse momento crucial da estratégia. Uma dada composição técnica não gera uma única composição política correspondente, mas apenas permite aos proletários escolher, de entre um vasto conjunto de opções, exatamente como fazer o uso mais eficaz da forma histórica de produção a que foram forçados. Os proletários podem, portanto, apropriar-se da sua composição técnica numa multiplicidade de formas, dependendo das necessidades imediatas da conjuntura histórica. Todas constituirão verdadeiras lutas proletárias, mas algumas revelar-se-ão mais eficazes do que outras. O modelo de composição de classe ilustra a forma como os proletários trabalham através de um vasto conjunto de estratégias, contentando-se com o que têm à mão, improvisando, testando e aprendendo com as suas experiências práticas.
Em segundo lugar, e a um nível mais sofisticado, alguns argumentaram, especialmente Mario Tronti, que a relação entre a composição técnica da classe e a composição política da classe não é tão causal como se poderia pensar. É claro que, à partida, parece certamente que a primeira determina unilateralmente a segunda: as lutas proletárias não podem simplesmente assumir qualquer forma que desejem, mas devem, em vez disso, apropriar-se das condições de produção já existentes e virá-las contra o capital. Mas, como Tronti recorda frequentemente aos seus leitores, uma vez que as inovações técnicas no processo de produção só podem ser consideradas como respostas diretas às lutas proletárias, a composição política das classes é precisamente o que força uma dada composição técnica em primeiro lugar (Tronti, 1972). Como Marx tinha demonstrado n’O Capital, as lutas militantes por uma jornada de trabalho mais curta coagiram os empregadores do século XIX a introduzir maquinaria economizadora de mão de obra no processo imediato de produção. Desta forma, o proletariado obriga o capital a reestruturar-se, transformando assim a sua composição técnica, as condições de produção e o modo de exploração. A relação entre a composição técnica da classe e a composição política da classe é, por conseguinte, entendida como sendo totalmente recíproca, tal como o próprio modo de produção capitalista é dito ser uma relação mutuamente envolvida entre os polos fundamentalmente dinâmicos do capital, por um lado, e do trabalho, por outro.
Mas mesmo que não possa ser visto como uma espécie de determinismo econômico, não deixa de ser verdade que o modelo de composição de classes, tal como foi originalmente formulado na década de 1960, se limitou gravemente ao ignorar o gênero, a raça e até a cultura. De fato, por um conjunto complicado de razões, o menosprezo geral por esta última era bastante comum entre os operaístas da época. Tronti falava por muitos quando anunciava de forma perentória que:
De fato, a cultura — como o direito de que falava Marx — é sempre burguesa, isto é, é sempre uma relação entre intelectuais e sociedade, intelectuais e povo, intelectuais e classe; é sempre, deste modo, mediação dos contrastes e sua solução num outro. Se a cultura é a reconstrução da totalidade do homem, busca da sua humanidade no mundo, vocação para manter unido o que está separado, então ela constitui, pela sua natureza, um fato reacionário e como tal deve ser tratada. Cultura operária, enquanto cultura revolucionária, é um conceito tão contraditório como o de revolução burguesa (Tronti, 1972, p. 275).
Não é difícil perceber que o seu principal alvo aqui é a noção gramsciana de hegemonia cultural, que tinha sido domesticada por Palmiro Togliatti para se tornar a política oficial do PCI. No processo de criticar o privilégio que o partido dá aos intelectuais, a sua busca injudiciosa de hegemonia cultural e a colaboração de classe descarada como meio para atingir esse fim, os operaístas podem ter inicialmente inclinado demasiado o bastão para o outro lado, virando as costas a tudo o que estivesse fora das lutas fabris das massas trabalhadoras. A revolução, pensavam eles, não se faria através da difusão gradual da cultura comunista por toda a Itália, na esperança de construir uma espécie de hegemonia proletária, mas apenas através das atividades autônomas, intransigentes e insurrecionais do trabalho produtivo explorado nas fábricas. A convicção de que o proletariado só devia travar as suas lutas nos terrenos — como o da produção — em que era diretamente constitutivo, levou-os a condenar pura e simplesmente a cultura como sendo totalmente contrarrevolucionária:
Desta maneira, a cultura — não pelos conteúdos que momentaneamente assume, mas precisamente pela sua forma permanente, isto é, como cultura — torna-se mediadora da relação social do capitalismo e função da sua conservação. A cultura de oposição não foge a este destino: introduz simplesmente o corpo das ideologias do movimento operário sob a veste comum da cultura burguesa (Tronti, 1972, p. 276).
Foi esta atitude que levou Bolonha a escrever:
Essa relação entre estruturas de atividade e atitudes político-ideológicas específicas e determinantes não é uma nova descoberta, mas vale a pena apontá-la, em parte porque a Alemanha nos dá uma ilustração bastante substancial dessa relação, e em parte para servir como uma lembrança para aqueles com um gosto por discussões confusas e inconclusivas sobre a “consciência de classe”, como se essa última fosse um fato espiritual ou cultural (Bologna, 2016).
A composição técnica, ou o conceito de classe como categoria econômica, é reduzida às estruturas profissionais, enquanto a composição política, ou o conceito de classe como sujeito político, não significa outra coisa senão as atitudes assumidas pelos explorados por essas estruturas; o conceito de consciência de classe é ridicularizado, assim como o da própria cultura. A composição de classe não era, decididamente, um assunto cultural.
Mas a década de 1970, que assistiu ao aparecimento de lutas em terrenos inteiramente novos, obrigou a um repensar. A ascensão do movimento das mulheres levantou questões importantes sobre a intersecção entre gênero e classe, a natureza do trabalho doméstico não remunerado e a masculinização forçada da força de trabalho, enquanto a explosão de formas dispersas de contestação cultural sublinhou a importância da identidade, da memória e da produção simbólica. Em 1974, Bologna e o círculo de historiadores militantes agrupados em torno de Primo Maggio, a revista que fundou em 1972, alargariam o conceito de composição de classes para incorporar as suas novas descobertas:
[…] para nós a composição de classe significava algo muito diferente da simples estrutura da força de trabalho e da sua estratificação por definições de emprego, níveis de qualificação ou rendimentos. Esta interpretação, totalmente sociológica e sindicalista, era muito diferente do que entendiamos por composição de classe — para nós, a composição de classe significava a síntese das experiências de luta, das atitudes subjetivas, das sedimentações ideológicas e do comportamento espontâneo de um determinado agregado de classe. Fatores de definição como as qualificações, o nível de competência, a idade, o local de origem (ou seja, todos os elementos ditos “objetivos”) estavam certamente incluídos na noção de composição de classe, mas não constituíam a sua substância (Bologna, 2010 (1974) ).
Em 1987, Bologna redefiniria a oposição entre composição técnica e composição política: “Utilizo o termo ‘composição técnica’ para definir a totalidade dos conteúdos socioprofissionais e a cultura de trabalho que lhes está associada, e defino como ‘composição política’ a totalidade dos modos de comportamento autônomos e conscientes de classe e a cultura de insubordinação da classe trabalhadora que lhes está associada” (Bologna, 2011). Não se pode deixar de notar o regresso evidente de dois conceitos considerados antitéticos ao próprio modelo de composição de classe: consciência de classe e cultura. O mais intrigante, evidentemente, é a forma como Bologna situa a dimensão cultural não como um mero efeito do momento técnico, como o glacê cuidadosamente vertido sobre um bolo depois de cozido, mas antes como aquilo que subjuga e define tanto o técnico como o político, a base e a superestrutura. Quer seja definida no seu sentido mais lato, como um modo de vida particular, ou mais estritamente, como o campo da produção artística, espiritual ou intelectual, a cultura tem sido frequentemente relegada para a superestrutura pelas teorias marxistas tradicionais da cultura. Mas ao argumentar que a composição técnica da classe não é algo que antecede a cultura, mas é ela própria constituída por ela, Bologna repensa efetivamente este modelo tradicional. A própria base é construída ao longo de linhas culturais: mesmo enquanto categoria econômica, a classe não pode ser separada da memória cultural, das ideologias tradicionais e dos modos de vida herdados. Da mesma forma que o proletariado tem de se apropriar de uma forma de produção imposta para os seus próprios fins, também o capital tem de se apropriar de padrões culturais pré-existentes, elaborando uma forma de produção em torno desses conteúdos na esperança de os recuperar para seu próprio benefício.
Assim, por um estranho acaso do destino, o modelo de composição de classe parece ter-se curiosamente aproximado bastante do próprio modelo que outrora esperava suplantar. De fato, o trabalho recente de Bologna quase começa a incorporar algumas das vantagens do modelo de consciência de classe no quadro da composição de classe, se não mesmo a sugerir a possibilidade de os dois poderem, de alguma forma, ser sintetizados num outro modelo. Obviamente, há muito trabalho a fazer aqui, mas com o recente “renascimento” do operaísmo em geral (Wildcat, 2009), é provável que o outrora ignorado modelo de composição de classe — essa velha chave mestra — seja finalmente remodelado para abrir portas uma vez mais.
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