grupo comunista antípoda

Trajetória e catástrofe da forma capitalista na construção teórica monolítica clássica do marxismo

por
  • Il Programma Comunista
Publicado em: 05/11/2026

COMENTÁRIO DA TRADUÇÃO

Para os viventes da era de Segunda Guerra Fria, posta entre EUA e China, o começo do texto a seguir pode parecer anacrônico e até desestimulante, afinal, do que interessa saber os pormenores estatísticos e os rumos de uma potência já esfacelada, substituída no campo global pelo gigante asiático? Mas como mostra o interesse continuado na velha questão de procurar uma definição para a formação social tanto soviética quanto chinesa, propomos que a frieza matemática inicial é capaz de gerar, ao continuar a leitura, um choque térmico dada a intensidade e calor do desenvolvimento que se segue. Longe de ser uma demonstração arbitrária de números quaisquer, todo os cálculos se unem em uma única direção: provar que também o capitalismo soviético, assim como nasceu e teve seu período de largada (que, em todo caso observado, é o de crescimento relativo tresloucado), havia de desacelerar e a cada anuário anunciar como cada vez mais próxima a hora de sua morte.

Passada essa possível dificuldade inicial, apresenta-se outra: uma declaração, em alto e bom tom, de que no Capital, essa obra intransponível e fria, o que salta aos olhos é justamente a descrição da sociedade comunista! Ao contrário de certa cepa dos comentadores de plantão, que localizam a divisão entre utopismo e socialismo científico no suposto fato de que o segundo se preocuparia meramente, tal qual um legista, com dissecar o corpo morto-vivo da forma capitalista, se opõe a constatação de que a ciência está justamente em prever, além das dinâmicas futuras do próprio capitalismo latentes em suas tendências, a própria ruptura, a própria sociedade comunista, ao mesmo tempo que se entra no campo de batalha da luta de classes cotidiana. Esta ciência tem ares de profecia, de mística, de uma conexão entre mundos no próprio presente, na tentativa de encontrar as rupturas sempre existentes do “monolítico” dado…

Segue-se uma bela exposição do que já estava por inteiro em Marx: o sangue vivo do trabalho, o capital variável, é a nutrição e anima do trabalho objetivado e morto, sem o qual não pode se fazer de vivo, que hoje e mais do que nunca comete um genocídio diário para manter essa aparência. Apesar disto, esse mesmo desenvolvimento citado das forças produtivas e da ciência prepara a própria ruína do capitalismo, a sua derrocada final. Tomando o direito de apenas mais uma volta, isso não quer dizer que é preciso se colocar de joelhos em frente a Ciência e ao Progresso, que estão nas mãos e são constituídos até a medula pelo capitalismo, e sim que se deve partir sua espinha para que seus frutos sejam passíveis de uma profunda desinfecção antes de seu eventual consumo. Reviveremos o que foi morto, injetando-o na Gemeinwesen 1, como fonte de felicidade e regozijo.

Contra a tentativa de curar a osteoporose desse monstro enorme composto de ossos de aço, veias de fios e órgãos de circuitos por meio dos teóricos do “bem-estar social”, que propõe o consumo e outras panaceias costumeiras, se enuncia a ditadura sobre o consumo, o ressonante NÃO ao odioso indivíduo, o Terror que reduzirá a puro pó esse entulho de cálcio-máquina. Contra toda teoria do desenvolvimento das forças produtivas que leva automaticamente ao “socialismo” dos Bernsteins, Stálins, e Xi Jinpings que surgiram, existem, e possam vir a ser, é jogado nas suas respectivas faces que o arco descrito pela trajetória da forma capitalista só termina em sua catástrofe, em sua morte esplendorosa nas chamas da revolução.


Trajetória e catástrofe da forma capitalista na construção teórica monolítica clássica do marxismo

INTRODUÇÃO

1. Três caminhos para o dilema histórico Rússia-Ocidente

Como de costume, o relator traçou o contorno geral do plano de trabalho que conduzimos em nossas reuniões, essas que — salvo exceções relacionadas a certos temas (Polêmica da Esquerda com a Internacional Comunista; Princípios básicos históricos e sociais do programa comunista 2) — estão divididas, de certo modo, em dois ramos: aquelas sobre a estrutura social e econômica da Rússia de um lado, e aquelas sobre o curso da economia capitalista do outro. O leitor encontrará referências a este trabalho, e às várias publicações organizadas pelo partido, nos relatórios preliminares de Cosenza e Ravena — assim como no início do texto recentemente distribuído e atualmente em curso de publicação; não vamos repetir essas referências aqui (Programma n.º 19 de 1956, n.º 3, n.º 4 e n.º 16 de 1957). 3

O relator defendeu por quais motivos essa contraposição de termos (entre Rússia e o capitalismo ocidental) domina a cena histórica e política dos últimos quarenta anos. Para os nossos adversários de todos os lados a antítese é — para o bem dos traidores do comunismo — mantida firme como uma antítese entre classes e formas de produção; entre socialismo proletário e capitalismo burguês. Para nós, pelo contrário, no curso histórico dessa questão moderna e flamejante, três “tempos” muito diversos se sucedem.

Três vias são sucessivamente anunciadas e esses são seus nomes:

Revolução - Guerra - Emulação

Nós somos e nos mantemos solidários apenas à primeira via, aberta com a revolução de Outubro de 1917 e fechada com a derrota das esquerdas revolucionárias na Rússia e em outros lugares. Esta era a via de Lênin.
A segunda via pode portar o nome de Stálin e um slogan: construção do socialismo apenas na Rússia. Na verdade, esta é a via da construção de uma força industrial, militar e imperial, sobre a qual paira o mito de uma derrota em guerra de todos os Estados e impérios do Ocidente; primeiro na Alemanha e depois na América, na paranoia de que morreu Stálin, com a chegada do comunismo a bordo de tanques por todo o mundo burguês, no engano difundido no mundo pela pandemia de idiotismo dos seus seguidores. Stálin morreu em 1953, mas seu horrendo monstro teórico o precedeu com a guerra da Coreia e a recuperação das economias imperiais do Ocidente.
Esse monstro terrível em termos de doutrina é ainda menos nojento em termos de conduta política quanto o Kraken que o sucedeu. A terceira via que veio em seguida pode ser atribuída ao XX Congresso e aos cortesãos do Stálin vivo que mijam sobre seu enorme cadáver. Essa é a via hipócrita da paz, a via da Emulação que — com igual profanação da teoria de Marx e de Lênin — traz uma imensa covardia histórica, que precisamos reconhecer como ausente na Rússia de Stálin, de Stalingrado e do 38º Paralelo. 4

2. A fornicação comparativa

A perspectiva do segundo pós-guerra mundial não era nada parecida com a expectativa dos trabalhadores de todo o mundo no primeiro pós-guerra, quando as declarações da Internacional e de Lênin nos congressos de Moscou anunciavam — como desenvolvimento da revolução bolchevique e da vitória na Rússia contra as forças da reação burguesa mundial — o assalto pela conquista do poder e a ditadura proletária nos estados da Europa. No segundo pós-guerra essa grandiosa promessa era renegada, como consequência da destruição da velha guarda bolchevique na Rússia e dos acordos feitos com os estados capitalistas na Europa e no mundo, primeiro com Hitler durante a guerra e depois com seus inimigos. Mas a ilusão proletária tendia em direção a uma segunda antecipação que cheirava a tragédia: o segundo golpe anunciado por Stalin em 1938, tramado na conferência de Yalta. Sonhou-se com um assalto das divisões blindadas russas, sobre os fatais campos da velha Europa, contra as forças americanas e anglo-francesas. Hoje ambas as fases são declaradas mortas e enterradas, tanto a primeira fase áurea quanto a segunda que possui um brilho sinistro. Os russos assinaram a primeira abjuração dissolvendo a Comintern, e a segunda dissolvendo aquele verme que foi a Cominform, de nome de bodega obscura e fétida. 5

Proclamada como a meta e como o novo sonho dos servos da Paz declarada, a coexistência dos dois mundos separados pela cortina — proposta para uma longa história do amanhã como a disputa justa de uma guerra fria de números e estatísticas — a terceira via da Emulação se entrelaçou sobre a atual estrada insidiosa e polêmica: a comparação quantitativa dos resultados obtidos e tornados públicos das “duas economias”, agentes nos pretensos “dois sistemas”.

Stálin profanou, com toda sua autoridade — antes de morrer —, a palavra de Marx e Lênin, unindo-as implicitamente na produção de mercadorias, presumindo que seu sistema a acelerasse mais do que o velho capitalismo do Ocidente que, no delírio da agonia, se viu inundado em uma fase de subprodução industrial, onde já imaginávamos: sabíamos que a corda que enforcará a todos os capitalismos, a única, é a corda da superprodução mercantil.

Os seus herdeiros as profanaram por questões “morais” que servem para “deslumbrar o burguês”, mas mais profundamente do que ele e com maior blasfêmia frente aos princípios do marxismo leninismo, se lançaram na corrida industrial mercantil, vendo em seu precipício a vitória do sistema “socialista” que, sem a revolução, sem a guerra do Bigodudo 6, teria induzido o resto do mundo a uma adesão um tanto incruenta, quanto aquela que substitui o parto dos organismos vivos e vitais; solução modelística e burguesamente “amostral” que desonra em uma paródia oleosa os antigos, mas generosos, sonhos dos Utópicos, desfeitos sem desdém algum por Marx.

Tal comparação e comensuração, possível entre iguais e não entre rivais, mesmo que não passe de fornicação e intriga, os obrigou à polêmica, a dialogar com o moribundo Stálin, com suas vítimas revividas e seus epígonos natimortos para mostrar: primeiro, que a diversidade entre os dois termos não subsiste senão em identidade de estrutura; e em segundo, que a comparação entre as cifras esquálidas, entre a cubagem dos dois sepulcros caiados, não consegue verificar a vitória quantitativa da parte russa.

E porque sobre tal passarela não podiam deixar de convergir os emuladores do outro lado, a polêmica não podia deixar de abrangê-los, suas versões igualmente lívidas das leis da estrutura mercantil, em cuja caducidade miserável dos dois campos emulativos verifica-se iguais tremores.

Tanto nos pressiona provar que o desenvolvimento do capitalismo russo atual segue as mesmas normas e leis que os capitalismos estatais históricos, quanto também mostrar que, à vívida luz do tempo de Marx — em que não falta nenhuma faixa do espectro luminoso — o caminho por eles traçado não é outro que não aquele da mesmíssima trilha histórica, que tem como objetivo a morte do mercado, a morte do dinheiro, a morte do trabalho pago, e uma sociedade, a potência de cujos personagens que remonta a um século de marxismo, que não pode ser contida em manequins publicitários, prometida em catálogos dos empórios burgueses, exibida nos institutos filisteus da academia econômica.

1. Desenvolvimento Histórico de Capitalismo

1.1. Material estatístico numérico e gráfico

A ilustração dos quadros e diagramas expostos em Piombino, foi em boa parte publicada nos números 17 e 18 do Il Programma Comunista de 1957, bastará reproduzir o conjunto das tabelas elaboradas.

Um grande gráfico já apresentado na reunião de Ravenna corresponde ao primeiro quadro de número 16. Esse contém os índices da produção industrial — igualados a 100 no ano de 1913 — de quatro países: Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos. Os anos iniciais resultam, correspondendo a ordem estabelecida: 1761, 1859, 1800 e 1827. Para cada país e cada ano considerado (todos de 1859 em diante), estão em evidência os máximos (picos verticais da linha) e os mínimos (os picos descendentes), compreendidos em dois segmentos do quadro para cada um dos quatro países. 7

O segundo quadro, já publicado no número 16 (comentado em detalhes apenas na publicação seguinte), relaciona não um, mas dois gráficos, que foram utilizados em primeiro momento na reunião de Cosenza e refeitos para a reunião de Ravenna e cuidadosamente controlados para essa ocasião. Neste gráfico figuram 7 países, ou seja, foram somados aos anteriores: Rússia, Japão, e Itália, enquanto que o ciclo considerado é apenas o de 1946-56. Os índices são vinculados à 1937 e a 1932, anos nos quais se adotou a base 100. O primeiro gráfico mostra a linha de índices da produção industrial, o segundo mostra a dos aumentos anuais representados nas cores convencionais das linhas horizontais para cada ano. 8

No número 17 é publicada uma terceira demonstração — cujo cálculo foi apresentado na reunião de Ravenna — que se limita aos quatro países do primeiro quadro pelos motivos já expostos, indo de 1859 até o presente. Essa demonstração é dividida em quatro tabelas, reúne tanto as cifras dos índices anuais constituintes máximos, como aqueles da vigência dos intervalos, do correspondente aumento total e do aumento anual médio do período, calculado a partir de critérios reconhecidos, ilustrados no gráfico apresentado no número 16. De país a país, a primeira série de períodos é sucedida por outra mais agrupada, chamada de “ciclos breves” e uma última de “ciclos longos”, com os mesmos valores calculados. 9

Este desenvolvimento, como notam os leitores, serve para demonstrar como nos quatro países e no último século, é verificada a lei de diminuição do aumento relativo. Essa constatação, como bem explica a viva-voz e o relato detalhado, se obtém ao estudar o trajeto “acima da conjuntura”, ou seja, segundo curvas que “envelopam” os máximos.

Essa demonstração talvez seja mais evidente na apresentação numérica — da qual os companheiros já dispõem — do que nos gráficos dispostos em duas grandes placas apresentadas em Piombino. Uma mostrando as três curvas da França, Alemanha e Inglaterra, e a outra a curva dos Estados Unidos, na qual a subida é muito mais acentuada.

Nos gráficos figuram as verticais dos anos de pico, assim como a curva do período entre dois picos, em linhas cheias nas cores seguintes (Inglaterra azul, França roxo, Alemanha marrom, EUA vermelho). Também mostra a curva II, geralmente muito mais alta, dos ciclos breves (a linha pontilhada, para simplificar), e enfim a curva III referente aos ciclos longos, a II marcada com traço e ponto, e a terceira com traço e dois pontos. Neste foram escritas as taxas finais dos aumentos, todos em queda como no terceiro quadro.

Destes dois grandes quadros vieram grandes explicações, colocando-as em relação com os cálculos e os resultados presentes no terceiro quadro. Foi ilustrado aos reunidos que a verificação clara da lei de decrescência do ritmo incremental anual médio não está efetivamente em contradição com o fato de que, para quem observa o gráfico em cores, enquanto a linha da produção de ano a ano dá origem, especificamente na fase que se segue a 1914, a uma quebra com contínuas oscilações, as curvas do máximo sempre ascendem, e nos anos mais recentes as linhas I, II e III assumem uma inclinação sempre mais acentuada até o topo. Tal argumento se reserva ao relatório detalhado, seja porque requer qualquer consideração matemática, seja porque é menos ágil a explicação sem a ajuda do desenho. 10

Nos limitamos nesta discussão a uma exemplificação numérica. Nos EUA, de 1913 até 1929, o índice da produção industrial salta de 100 para 205 em dezesseis anos. O aumento relativo total é de 105% (100 + 105 = 205) e o [aumento] anual médio calculado corretamente (ver o número 18, não fazemos 105/16, que daria mais de 7%) foi de 4,6. A linha III do gráfico era muito inclinada. Mas a inclinação de tal linha não dá a ideia da taxa anual, mas do aumento absoluto da produção em um ano, que é precisamente o 7% da produção de 1913. Note agora o leitor, o período seguinte de 1929-1956. Em 27 anos se lucra de 205 a 517, ao total 150%, e com o cálculo anual exato de 3,5%, que se verifica menor que o anterior de 4,6%, como procuramos demonstrar. Por que agora, a linha salta mais bruscamente? Fácil. Façamos 517-205 e teremos 312 de aumento absoluto, sempre em relação à unidade 100 de 1913. Em cada um dos 27 anos, ocorreria um aumento médio bruto de 312/27 (ou seja 11%), portanto, bem mais que o aumento de 7% do período anterior. A nossa quebra, cuja inclinação denuncia o aumento absoluto bruto, deveria então estar mais inclinada.

Um gráfico futuro, que desejamos poder publicar, ajudará os não matemáticos a orientar-se entre tais grandezas e relações.

Tabela I. Demonstração da produção industrial anual na Inglaterra, França, Alemanha e EUA de 1865 a 1956. 11

Índice máximo e mínimo (1913 = 100)
Ano Inglaterra França Alemanha EUA
Máximo Mínimo Máximo Mínimo Máximo Mínimo Máximo Mínimo
1865 32 - - - - - - -
1867 - 31 - - 15 - - -
1869 - - 29 - - - - -
1870 - - - - - 13 - -
1871 - - - 23 - - - -
1872 - - - - 18 - - -
1873 - - - - - - 10 -
1874 - - - - - 17 - -
1875 - - - - - - - 9
1876 - - - - 18 - - -
1877 45 - - - - 16 - -
1879 - 41 - - - - - -
1883 56 - 45 - - - - -
1886 - 49 - 37 - - - -
1889 62 - - - - - - -
1891 - - - - 36 - - -
1892 - - 49 - - 34 29 -
1893 - 55 - 48 - - - -
1894 ~ - - - - - - 27
1899 73 - - - - - - -
1900 - - - - 62 - - -
1901 - 71 - - - 61 - -
1902 - - - 57 - - - -
1906 84 - - - 83 - - -
1907 - - 76 - - - - -
1908 - 77 - 75 - 76 - 68
1911 87 - - - - - - -
1912 - 86 100 - 100 - - -
1913 100 - - - - - 100 -
1914 - - - - - - - 93
1915 - 87 - 28 - 72 - -
1917 90 - 47 - 90 - - -
1918 - - - 43 - - - -
1919 - 85 - - - 32 - -
1920 91 - 51 - - - 133 -
1921 - 57 - 45 - - - 105
1922 - - - - 71 - - -
1923 - - - - - 44 162 -
1924 94 - 89 - - - - 154
1925 - - - 86 81 - - -
1926 - 66 97 - - 78 - -
1927 106 - - 86 - - - -
1928 - 98 - - - - - -
1929 113 - - - 103 - 205 -
1930 - - 114 - - - - -
1932 - 82 - 75 - 51 - 116
1933 - - 82 - - - 146 -
1934 - - - - - - - 135
1935 - - - 76 - - - -
1936 - - 89 - 109 - - -
1937 132 - - -   94 220 -
1938 - 127 - 79 103 - - 162
1939 131 - 87 - - - - -
1943 - - - - - - 445 -
1944 - - - 27 - - - -
1946 - 125 - - - 30 - 328
1948 - - - - - - 376 -
1949 - - - - - - - 353
1951 171 - - - - - - -
1952 - 163 118 - - - - -
1953 - - - 114 - - 486 -
1954 - - - - - - - 451
1956 193 - 150 - 195 - 517 -

1.2. Diagrama pós-bélico da indústria russa

Para formar o quadro exposto no número 18 [do Il Programma Communista] e que poderia ser dita a quarta demonstração, são empregados os índices da produção russa dados pelo anuário estatístico oficial daquele governo, de 1913 até 1956, reduzindo-os à base de 100 para 1913.

Tabela II. Desenvolvimento recente do capitalismo mundial. 12

Produção industrial anual nos principais países do mundo de 1932 até 1955 (índice base 1932 = 100) e aumentos anuais da produção industrial nesses mesmos países de 1947 até 1955.
Anos EUA URSS Grã-Bretânia Alemanha França Japão Itália
Prod D% Prod D% Prod D% Prod D% Prod D% Prod D% Prod D%
1932 100 - 100 - 100 - 100 - 100 - 100 - 100 -
1937 190 - 232 - 161 - 184 - 119 - 172 - 150 -
1939 184 - 299 - 160 - 2021 - 116 - 197 - 164 -
1932-46   183   152   53   42   9   48   9
1946 283   252   153   58   91   52   109  
1947 315 11,1 309 22,6 157 2,6 80 13,7 107 17,6 63 21,2 129 18,4
1948 324 2,9 390 26,2 175 11,5 109 13,7 123 15 83 31,7 153 18,6
1949 304 -6,3 470 20,5 187 6,9 155 42,2 133 8,1 103 24,1 164 7,2
1950 337 11 585 24,5 199 6,4 195 25,8 133 0 117 13,6 188 14,6
1951 371 10,1 684 17 208 4,5 234 20 151 13,5 159 35,4 216 14,9
1952 390 5 768 12,3 199 -4,3 250 6,8 157 4 177 11,3 224 3,7
1953 419 7,6 865 12,7 210 5,5 305 8,8 152 -3,2 216 22,1 247 10,3
1954 389 -7,1 983 13,7 225 7,1 305 12,1 165 8,6 234 8,4 270 9,3
1955 433 11,3 1108 12,7 235 4,4 355 16,4 181 9,7 244 4,3 294 8,9
1946-552   53,0   340   54   512   99   369   170
1946-553   4,8   17,9   4,9   22,3   7,9   18,7   11,7
1956 445 2,9 1239 11,1 235 0 383 7,8 199 9,9 294 20,5 316 7,5
1946-554   VII   III   VI   I   V   II   IV
¹ Produção 1938; ² Aumento total; ³ Aumento médio anual; ⁴ Classificação.

Junto ao diagrama, mais completo que os outros como dissemos agora, mas limitado por agora somente ao ano de 1913, foi mostrado no local da reunião, uma reprodução fac-simile do grande quadro publicado no número 18, lançado depois da reunião e de que hoje o leitor dispõe e é convidado a confrontar. 13

A tabela para a Rússia resume todos os dados dos quadros I, II e III em um único quadro. Da esquerda a direita são indicados os anos, os índices relativos, os vértices de máximo e mínimo, os incrementos percentuais calculados ano a ano. Ainda para determinados períodos intercalares, que por motivos evidentes são escolhidos os mais próximos dos poucos vértices do verdadeiro máximo, são dados os anos do período e os aumentos totais e anuais; por fim se repete, entretanto, para os ciclos breves e longos.

Para explicar os pormenores deste quadro, devemos remeter à próxima edição do relatório publicado, e em parte às anotações que acompanham o mesmo quadro no número 18.

Falaremos brevemente da apresentação de maneira gráfica, que antes era mais completa que para qualquer outro país. Na verdade, tendo os dados de todos os anos (exceto pelos trágicos 1914-1918 e 1941-1942), é dada a curva ou quebra real dos índices anuais; então a linha dos períodos intercalares, que são sete, e que segundo o procedimento não tem declives, ainda a linha II para quatro ciclos breves e a linha III para dois ciclos longos.

Superiormente e com outra cor é marcada a linha dos incrementos anuais, não médios do período, mas efetivos ao fim do anuário oficial; tal linha é vista como uma quebra de traços horizontais conjuntos na vertical e, assim, é omitida e interrompida nos anos de decréscimo. Agora, enquanto a linha azul da produção sobe com audácia, a vermelha dos incrementos relativos é formada por duas espécies de escadas que, seja apenas com algum sobressalto, aparecem de súbito aos olhos do observador como decrescente da esquerda à direita, ou seja com o passar dos anos, dando a sensação prática da mesma relação que, pouco mais acima, tínhamos a pretensão de deduzir dos números a propósito da América.

A eloquente demonstração dos dados russos vem a provar que o caminho desse capitalismo industrial segue as mesmas normas do capitalismo histórico do Ocidente: aumento da produção absoluta e até de seus “disparos absolutos” anuais, diminuição imparável da taxa anual do incremento relativo sobre períodos que atravessam as conjunturas, taxas altas como as do capitalismo americano de 1800, e enquanto seja possível notar as mais altas, não por muito, explicados com a norma que o capitalismo russo é o último a nascer e a renascer.

Tabela III. Aumento relativo historicamente decrescente do capitalismo. 14

Grã-Bretanha Alemanha
Ciclos Curtos Ciclos Longos Ciclos Curtos Ciclos Longos
Anos Variação* Anos Variação Anos Variação Anos Variação
1859-65 4,8 1859-83 3,6 1859-72 4,6 1859-72 4,6
1865-83 3,2     1872-900 4,5    
1883-906 1,8 1883-913 2 1900-13 3,7 1872-913 4,2
1906-13 2,5     1913-29 0,2    
1913-29 0,7 1913-56 1,5 1929-56 2,4 1913-56 1,6
1929-37 2            
1937-56 2            
França EUA
Ciclos Curtos Ciclos Longos Ciclos Curtos Ciclos Longos
Anos Variação Anos Variação Anos Variação Anos Variação
1859-83 4,2 1859-83 4,2 1859-92 7,1 1859-92 7,1
1883-99 2,1     1822-913 6,1 1892-913 6,1
1899-913 3,4 1883-913 2,7 1913-20 4,2    
1913-30 0,8     1920-29 4,9 1913-29 4,6
1930-56 1,1 1913-56 1 1929-37 0,9    
        1937-56 4,6 1929-56 3,5
* Em ambas as tabelas “incremento médio percentual anual”.

Nos limitamos aqui a coligar tais considerações que apresentam bem em síntese essa parte da pesquisa com o quadro dos quatro países em ordem de idade que, no número 17, figuram na quarta e quinta coluna da terceira página. 15 A Rússia está marcada depois dos Estados Unidos e o seu ciclo de partida, embora cronologicamente de acordo com a terceira parte do quadro, assim completaria a “horizontal dos debutantes” (não confundir com início de uma horizontal): Inglaterra 3,6; França 4,2; Alemanha 4,6; Estados Unidos 7,1; Rússia 9,1.

Como na ordem natural da forma capitalista de produção.

Tabela IV. Perspectiva sobre a confirmação da norma de diminuição do aumento percentual anual para o capitalismo russo de 1921 até 1958. 16

URSS
Ciclos Curtos Ciclos Longos
Anos Variação* Anos Variação
1913-1921 -13,6 1921-1940 19,1
1921-1932 21,6 1940-1958 8,4
1932-1940 15,6    
1940-1958 8,4    
* Incremento médio percentual anual.

Tabela V. Perspectiva sobre os aumentos totais anuais da produção industrial nos países e nos períodos típicos do desenvolvimento histórico do capitalismo. 17

  Grã-Bretanha França Alemanha EUA Japão Rússia
* ** * ** * ** * ** * ** * **
De 1880 até 1900 (período de paz) 100 3,5 250 6,5 300 7,2 400 8,4 800 11,6 - 13
De 1900 até 1913 (Imperialismo) 40 2,6 130 6,6 150 7,3 400 8,4 250 10,1 - 10
De 1913 até 1920 (I Guerra Mundial) 0 0 -38 -6,6 -45 -8,2 26 3,4 57 6,7 -87 -25,3
De 1920 até 1929 (reconstrução) 0 0 126 9,5 150 7,3 26 3,4 89 7,3 1300 34,1
De 1929 até 1932 (período de crise) -30 -11,2 -31 -11,6 -36 -13,8 -46 -18,6 0 0 85 22,8
De 1932 até 1937 (período de recuperação) 55 9,2 5 1 90 13,7 69 11 75 11,8 150 20,1
De 1937 até 1946 (II Guerra Mundial) -5 -0,6 -23 -2,9 -69 -12,2 51 4,7 -70 -12,5 0 0
De 1946 até 1955 (reconstrução) 53 4,8 98 7,9 510 22,3 53 4,8 370 18,8 340 17,9
* Aumento percentual no período. ** Aumento percentual anual médio.

O quadro presente é elaborado apenas sobre dados de fontes russas (Varga, Stálin, Kruschev). Os índices dos primeiros dois períodos são trechos retirados dos números relativos às indústrias base, fornecidos por Varga.

Partindo da vertical, estão dispostos os Estados de acordo com a idade da forma industrial, verifica-se que o capitalismo mais jovem tem um crescimento médio mais rápido.

Partindo da horizontal verifica-se que em fases normais o ritmo do crescimento de todos os países diminui com o tempo.

Partindo das fases de guerra e de crises verifica-se que os capitalismos maduros e vencedores resistem bem à guerra (imperialismo) e até avançam; mas cedem às crises.

Partindo das fases de pós-guerra e pós-crise verifica-se que a recuperação é mais forte quanto mais jovem é o capitalismo, e a queda é violenta.

A horizontal russa confirma todas as tendências das outras formas capitalistas.

1.3. O comércio mundial

Até este ponto os estudos têm tido como objeto a massa da produção industrial, indicando, quando preciso, as fontes das cifras e os modos com os quais os autores relatam tê-las investigado e estabelecido.

Com trabalho intenso os camaradas prepararam tanto uma tabela quanto um gráfico, mostrados em reunião, mas inéditos e calculados muito velozmente, nos quais figuram os números do comércio interestatal de exportação e importação. Embora se tenha as cifras dos principais países, e inclusive dos menores, elas serão usadas mais adiante. Possui até números da produção manufatureira mundial, mas motivos de tempo não permitem deles fazer uso.

Foi portanto feita uma verificação sobre os números do comércio mundial, chegando à mesma conclusão para a produção dada sobre a lei do aumento decrescente.

Ainda sobre isso, relatamos aqui os resultados gerais.

Os índices empregados são elaborados pelo mesmo autor: Kuscinsky, com cuidado particular para torná-los proporcionais ao comércio físico, ou em valores reais, salvando-se da selva das taxas de câmbio e transformações do poder de aquisição das moedas internacionais. Aceitos como bons os seus índices, eis a conclusão.

Os dados de 1834 até 1929 podem ser classificados em quatro períodos:

  1. 1834-1860. 26 Anos, de 8,5 até 32. Crescimento total: 282%. Média anual: 5,4%.
  2. 1860-1890. 30 Anos, de 32 até 94,2. Crescimento total: 194%. Média anual: 3,7%.
  3. 1890-1913. 23 Anos, de 94,2 até 197,8. Crescimento total: 110%. Média anual: 3,3%.
  4. 1913-1927. 14 Anos de 197,8 até 261,7. Crescimento total: 32%. Média anual: 2,0%.

A série, calculada “cara a cara” com os ouvintes (mais contraditórios), resulta limpidíssima: 5,4; 3,7; 3,3; 2,0.

1.4. Relações de força entre capitalismos

A parte econômico-estatística que ocupou a primeira e parte da segunda sessão da reunião, fechou-se com a ilustração de uma estatística da produção manufatureira no mundo que será finalizada e publicada a seu tempo, levando em conta as fontes e o método de elaboração.

A dita pesquisa vai de 1870 até 1938 e falta desenvolvê-la até os dias de hoje. Nessa, não figuram mais os índices proporcionais ao volume da produção de cada país, mas os valores percentuais que representam a produção manufatureira de cada Estado em relação ao nível mundial.

Os primeiros sete Estados são aqueles já estudados anteriormente: USA, URSS, Alemanha, Inglaterra, França, Japão e Itália. São reportados alguns estados menores como Canadá, Índia, Bélgica, Suécia, Finlândia e, enfim, em bloco todos os outros países, que em geral compõem pouco mais de 12% da produção mundial total. Tal tabela é muito sugestiva para seguir os deslocamentos do baricentro das forças estatais capitalistas.

No marxismo, a forma-capital parte do ideal burguês de liberdade que se apresenta como independência nacional, e na realidade como concretização dos grandes poderes de Estado centralizados. A concentração dos capitais e das unidades geográfico-demográficas de potência que dá a marcha histórica até o totalitarismo imperialista. A negação dialética, que está nisso, no ideologismo liberal de nascença, é para nós o verdadeiro trampolim de lançamento à revolução proletária. O capitalismo e o mercantilismo não serão mais superestatais: 18 o socialismo, ao matá-los, destruirá a constelação dos Estados, atacando os astros de primeira grandeza.

Melhor que as palavras dizem os números.

Em 1870 ainda perdura o domínio britânico, com o percentual de 31,8. Um país que agora tem 1/40 da população do mundo produz um terço dos produtos industriais. Na classificação seguem: EUA 23,3, Alemanha 13,2, França (a tempos fora do segundo lugar) 10,3. O Japão ainda está ausente, a Rússia aparece com tímidos 3,7%, o resto é insignificante.

Seguiremos apenas as grandes transformações históricas

Em 1881-1885 a primazia inglesa foi perdida: EUA 28,6, Inglaterra 26,6. A Alemanha está em aumento, a França em forte diminuição.

Em 1896-1900 o fato notável é a aproximação da Alemanha à Inglaterra: EUA 30,1, Inglaterra 19,5, Alemanha 16,6, França 7,1. Salientamos que a Rússia (Czarista) está em 5, a Itália em 2,7, o Japão em 0,6.

Em 1906-1910 os EUA atingem pela primeira vez o “recorde de todos os tempos” (talvez desde o Império Romano, escravos à parte…) com 35,3. Na Europa o fato que anuncia a guerra: a Alemanha ultrapassa Albion (Inglaterra) 19: 15,9 contra 14,7. A França termina agora em 6,4: A Rússia está firme em 5, o Japão saltou para 1,0 (vitória no Oriente) e Itália em 3,1.

Os valores da vigília imperialista de 1913 acentuam todos estes resultados no mesmo sentido.

De forma totalmente aproximativa e provisória foi aqui introduzida a consideração das populações, formando um certo índice que tem em conta a produção em paridade com a população. Fazendo sobre isso todo tipo de reservas, apresentamos a classificação do potencial unitário (diferente do absoluto) então obtida: EUA 4,0, Inglaterra 3,5, Alemanha 2,86, França 1,60, Itália 0,76, Japão 0,50, Rússia 0,37.

Dessas duas séries de dados se perfila a ameaça alemã e o motivo da primeira intervenção dos EUA na Europa, feito de orgulhosa conservação do capitalismo.

Depois das transformações de território da primeira guerra e a recuperação em 1926-1929 se poderá constatar: os EUA esmagaram a Europa com um novo e maior recorde de todos os tempos: 42,2! Mas a Alemanha não foi derrotada para sempre: está todavia em segundo lugar com 11,6. Os vitoriosos seguem: Inglaterra 9,4, França 6,6, Itália 3,3. Quanto à Rússia, essa não se recuperou, só recupera a posição do tempo czarista: 4,3.

Mas é a Rússia que se sobressai nos valores de 1936-1938, ou seja, na vigília da Segunda Guerra Mundial, provocando com sua poderosa industrialização, sobre um território imenso, a queda do potencial estadunidense para 32,2, apenas. A Rússia chega agora ao segundo lugar com 18,5. Seguem-se distanciados: Alemanha com 10,7, Inglaterra com 9,2, França com apenas 4,5, Japão (em forte ascensão) com 3,5, Itália com 2,7, em contração sensível.

Destes valores também fizemos uma redução para parear com a população, a classificação segue: (1) EUA 2,57; (2) Inglaterra 1,95; (3) Alemanha 1,34; (4) Rússia 1,18; (5) França 1,11; (6) Itália 0,61; (7) Japão 0,50.

Devemos agora devolver as deduções que se podem tirar de uma análoga estatística posterior à Segunda Guerra Mundial e reportada até hoje. Na pesquisa utilizada, são justamente evitados os anos de depressão. Uma indagação como a que acabamos de discutir pode estabelecer uma relação entre os deslocamentos dos campos de potência industrial e os lados prováveis nas guerras sucessivas: uma lei confirmada para a Primeira e Segunda Guerra Mundial poderia dar notável luz na previsão da terceira, dando atenção aos países em queda de prestígio de um lado e aqueles em forte ofensiva (falamos de estatística e não de moral! Que pena!) de outro.

Qualitativamente é correto que as últimas posições dos Estados Unidos, sobre um terço do mundo, são hoje mantidas firmemente; a Rússia progrediu muito além do quinto lugar, e talvez esteja no quarto, enquanto ainda caem Inglaterra e França (e Itália). A Alemanha está tentando ser capaz de uma terceira recuperação, e o Japão de uma segunda.

Quando forem rompidos os limites entre os mercados e as restrições ao desarmamento forem deixadas no passado, os focos da rivalidade imperialista deixarão de lado algumas das tradicionais potências europeias, e na linha de frente estarão os conservadores EUA; Rússia, Alemanha e o Japão (ou Ásia). Como se dividirem, uma rota dos primazistas da América será sempre o mais belo atout da Revolução, se essa não tiver tido o tempo de prender em antecipação a besta do imperialismo militar.

2. A GUERRA DOUTRINÁRIA ENTRE O MARXISMO E A ECONOMIA BURGUESA

2.1. Dinâmica da forma capitalista

Um ponto crucial — antigo e moderno — da batalha em torno das teorias do movimento revolucionário proletário é o de se Marx havia em suas obras, assim como no monumental — embora inacabado em sua morte — O Capital tido por objetivo apenas a descrição das leis que governam a economia capitalista, e não também a apresentação às massas em luta do claro programa da organização social que sairá da revolução operária: o socialismo, o comunismo.

A posição da esquerda marxista radical, ou seja, dos únicos marxistas que tem direito a esse adjetivo (seja apropriado ou não derivar adjetivos de nomes de pessoas) sempre foi a de que na obra de Marx está em primeiro plano — para dizê-lo fora de todo equívoco e cruamente — a descrição das características da sociedade comunista.

A velha objeção que se evoca na antítese entre socialismo utópico e socialismo científico, na qual uma delas é a expressão correta da potência original do marxismo é, neste caso, empregada sobre um plano falso.

Utopismo é o “propor”, partindo de uma construção feita na mente do autor e ditada por uma pretensa racionalidade, uma forma nova de sociedade que se deve aplicar, através da adesão dos outros homens pensantes à propaganda daqueles que a propuseram, ou na forma mais deteriorada, através de uma decisão dos poderes, dos governos atuais.

Socialismo científico não é — se não para os ex-socialistas que foram aburguesados até a medula espinhal — desinteressar-se pelas características da sociedade futura e não dizer nada sobre suas próprias “discriminações” defronte a presente forma social, e limitar-se ao estudo descritivo das leis dessa forma, da atual economia capitalista. Socialismo científico é prever — não segundo planos racionais nem preferências sentimentais ou morais — tanto os desenvolvimentos dos fenômenos da forma social burguesa quanto os processos históricos pelos quais passará, e a nova e diferente dinâmica das forças econômicas que lhe seguirá, e não só isso, mas também se opor a elas, na dialética da pesquisa doutrinária e do combate revolucionário.

Com o fim do condicionamento por essas passagens, pelo fato de que a própria necessidade entre na cabeça de todos (ou ao menos da maioria) e com a noção exata do problema “classe revolucionária, partido revolucionário” — noção cujo nome é: ditadura — apenas assim morre o utopismo e com isso seu meio-irmão deformado: o social democratismo!

De décadas em décadas a nossa escola histórica, e há vários anos a nossa atual pequena organização de trabalho, demonstrou com esforço assíduo e com citações orgânicas e dialéticas, não livrescas — ou pior, ouvidas —, dos textos marxistas clássicos antigos e recentes, e especialmente do próprio Capital que todos — até o pavoroso “ateórico” Joseph Stálin — degradam e tratam friamente como economia descritiva, ali onde, da primeira até a última página, percorre o grito revolucionário e a michelangesca escultura do objetivo da Revolução. Trata-se de lê-lo como deve ser lido, ou seja, vivendo-o e combatendo em todos os passos as formas burguesas reais e ideais, contra às quais ele avança impiedoso e sem trégua alguma.

Fazer ciência descritiva quer dizer aceitar como estático, eterno e permanente o quadro dos fatos que são considerados: fazer dialética e programa revolucionário quer dizer extrair dos fatos a ciência da própria dinâmica inesgotável.

Impelidos pelo fato de que a descrição marxista do capitalismo é inseparável do cálculo da órbita que esse descreve na história, os economistas burgueses se empenharam por um século a descrições diversas e opostas, de cujas leis “científicas” possa emergir a possibilidade de uma vida longa e eterna da forma-capital — id est, da forma-mercado.

A inferioridade dessas múltiplas tentativas está no fato de que essas realizam acrobacias realmente notáveis para dar essa leitura dos fenômenos que apresenta o capitalismo contemporâneo, ou seja, o já amadurecido capitalismo; mas nenhuma sabe ou poderia responder àquela parte gigante da construção de Marx que demonstra como o capitalismo — ou seja o capital — nasce e se é formado historicamente, e como substituiu precedentes formas da organização social.

O habitual joguinho sobre os “índices” fornecidos pela estatística corrente, aquela cujo os russos acreditaram tão rápido e piamente — supõe, em todos os seus cálculos e fórmulas falsas, uma grande mentira: que mercado e capital sempre existiram, desde a criação do mundo.

Marx se opôs a isso em todas as demonstrações e em todos os capítulos retoma, em seus parágrafos, sobre a origem histórica das formas que trata: isto desde os primeiros capítulos clássicos do completo Volume I, até todos aqueles das partes do segundo e do terceiro que nos foram conservadas. Toda vez que ele enuncia como as características da produção capitalista não são originais (“naturais”), mas adquiridas, ele demonstra — dezenas de vezes explicitamente, e centenas de vezes implicitamente — que aquelas características são caducas e que a história verá o desaparecimento da forma-capital.

2.2. Os primeiros estudos para O Capital

Na reunião foram largamente utilizados os materiais que existem na obra póstuma de Marx — edição e curadoria do Instituto Soviético —, que reúne os primeiros rascunhos de seus textos, inclusive antes da primeira edição da Crítica da economia política, realizada em uma redação completa do autor em 1859, e depois transfundida nos primeiros capítulos do Livro I, surgido em 1867.

O grupo de Paris 20 forneceu a tradução de passagens muito importantes do texto alemão. Este, impresso em Berlim em 1953 a partir da edição de Moscou de 1939-41, com o título Fundamentos da Crítica da Economia Política, reproduz fielmente um manuscrito feito pelo punho de Marx nos cadernos de 1857-1858 constituindo a primeira redação em esboço da obra em preparação, da qual apenas uma parte tomou a forma da publicação legal de 1859. Em todo o restante do livro atual, cujo título foi posto pelos editores e não pelo autor, existem rascunhos saídos das partes mais diversas d’O Capital e inclusive tratados que não encontraram lugar nele, e cujo desenvolvimento se encontra espalhado em toda a literatura marxista. 21

Pondo em destaque a extra-grande importância deste texto juvenil (mas já bem posterior tanto ao Manifesto Comunista quanto o Anti-Proudhon, 22 ou seja, correspondendo a uma época na qual a teoria econômico-social já estava em forma definitiva na mente de Marx — assim como estava para os compiladores desses nossos trabalhos, exatamente um século depois), valem algumas observações de caráter organizativo. No esboço, Marx escreve sem qualquer limitação por razões editoriais, e portanto não tem motivo para mascarar (no sentido de se remeter a uma leitura particularmente sensata e sagaz) partes de seu pensamento. Quando, porém, pensou na redação definitiva para a impressão, ele — que sempre teve em vista a publicação na Alemanha e na língua alemã do original — foi obrigado, até pelas graves dificuldades econômicas que nunca pouparam seu fôlego, a ter em conta a censura rigorosa naqueles tempos. Ele portanto tornou menos explícitas, sem nunca sacrificar cientificamente, as passagens políticas e agitativas. De outro lado, como ele vinha trabalhando seriamente sobre economistas ortodoxos, calculava então que a sua obra científica atingiria outros, além de operários e companheiros de fé, mas também os contraditores científicos, que indubitavelmente não eram, um século atrás, as pessoas desprezíveis, arrivistas e vendidas de hoje. Ele deixou então que em um primeiro momento se pensasse que se tratava de um estudo científico no sentido neutro — mas decente — dos termos; o que não o fez deixar de escrever as inúmeras páginas de chamas que podem ser lidas por quem não fez do livro material para uma biblioteca fechada, mas para uma vida de luta, e sabe buscar tranquilamente, naquelas páginas, as tempestades que se seguiram a tantos decênios e todavia seguirão.

São portanto preciosas páginas do rascunho, cheias de passagens não limadas, de palavras em todas as línguas, de notas incompletas e quebradas, porque úteis para irrevogavelmente confirmar quanto dos textos “oficiais” havíamos lido em meio século e quanto havíamos, nós e nossos companheiros de partido e escola, centenas de vezes sem sombra de dúvidas afirmado, de modo a ter conteúdo para qualquer hesitante e distante inimigo, vez ou outra próximo, que enfim podemos fazer engolir com enunciações originais — até mesmo passados pelo crivo de uma organização manuseada pelos seguidores de todas as deformações — martelantes, claras, evidentes “à créver les yeux“! (que salta à vista!)

2.3. Primeira capitulação do inimigo ideológico

Não tardaremos a atingir a mina que apresentamos. E dessa retiraremos até o filão principal, na qual se pode ver como a todas as críticas dos investigadores “posteriores” já tinham uma resposta antecipada, e colheremos prova para o assunto desenvolvido em outras reuniões (Ver Asti, Milão, etc.) que as teorias dos superadores de Marx são remastigações das velhíssimas posições sobre as quais o próprio Marx já havia passado triunfante. 23

Queremos mostrar que nas versões dos economistas e institutos de pesquisa econômica, todos voltados à defesa da apologia do capitalismo, na mesma terminologia, na mesma apresentação dos fenômenos econômicos da sociedade atual, vão cada vez mais adotando não só expressões, mas até métodos de cálculo que originalmente foram estabelecidos na economia de Marx.

Foi mostrado na reunião um interessante dossiê inédito (para os milionários no caso) da revista capitalista americana Fortune. Ele tinha o título em letras de caixa alta: Fortune 500. O que são os 500? São as 500 maiores empresas capitalistas dos Estados Unidos, elencadas neste ano como no anterior, em ordem de grandeza de capital relativo.

Várias vezes lutamos para convencer até velhos marxistas professos que para nós o capital não é medido pela grandeza dos meios de produção, ou seja, pelos valores do maquinário, dos utensílios, das oficinas, das reservas de matérias-primas semi-trabalhadas ou de produtos não vendidos (estoques, inventários, mercadorias em armazém). O capital é para nós a soma das mercadorias vendidas em um ciclo — seja ele o ano civil —, a soma dos produtos no ano de elaboração. E quando procuramos a taxa de lucro de tal capital, colocamos em relação com ele o lucro da empresa, que em nossa terminologia é o “mais-valor”. Em relação, isto é, não com os valores das instalações da qual a empresa é proprietária, mas sim com o valor de mercado dos produtos, ou seja, com o volume dos produtos vendidos, aquilo que na Itália, como dissemos tantas outras vezes, chama-se “fatturato”.

O quadro dos 500 monstros contém na verdade os seguintes dados: nome e sede da sociedade; “sales” ou vendas ou fatturato; “assets” ou seja ativos do balanço patrimonial, e então os valores dos estabelecimentos e maquinários; a classificação vai de acordo com esses valores, enquanto a classificação base é de acordo com as “sales”, lucro líquido; capital acionário (no curso da bolsa); número de acionistas; número de dependentes; taxa de lucro em percentual de vendas; taxa de lucro em percentual de capital acionário.

Não aparece nem a taxa de lucro em percentual de assets, ou seja, dos valores patrimoniais das instalações.

Para fixar as ideias, diremos que a líder é a General Motors de Detroit, maior indústria automobilística que se confronta no Diálogo 24 com a nossa FIAT. As vendas em 1956 aparecem como 10.796 milhões de dólares, ou seja, quase 11 bilhões, o que é cerca de 6.750 milhões de liras italianas. Até para o ano de 1956, vinte FIATs!

O pessoal aparece como 600.000 unidades contra cerca de 75.000 da FIAT, ou seja 8 FIATs. Repetimos que a produtividade se mantém, em tempo de trabalho, senão em despesa salarial (não temos tal dado) em duas vezes e meia daquela de nossa maior empresa.

O lucro líquido é de 847 milhões de dólares, isso quer dizer 7,9% do valor das vendas. Sendo o capital acionário apenas 4.581 milhões de dólares, a taxa de lucro sobre este chega ao 18,5%

O valor das instalações, ou assets, é 7.400 milhões, ou seja mais do que o capital acionário, mas muito menos que as sales, ou vendas.

A ausência do gasto salarial e ordenados aqui nos impede de calcular como no caso da FIAT o capital variável e o saldo de mais-valor. Nos impediria mais ainda a ausência dos valores de investimentos em novo capital, retirados antes de distribuir o lucro líquido indicado, mas certamente notável até o ano de 1957. Mais uma vez vemos como pode muito bem ser alta a taxa de mais-valor enquanto tende a diminuir a do lucro.

O que é notável é como os mesmos órgãos capitalistas não levam em conta o capital fixo, mas apenas aquele que circula e transborda na massa do produto; o que está em estranho contraste com o assunto das várias escolas econômicas modernas (Keynes, escola do Bem-estar social ou welfare) que querem introduzir como fator da produção de mais-valor (para eles do aumento do rendimento nacional) ao lado do fator humano, trabalho vivo de Marx, aquele da riqueza constituída ou capital físico, ou trabalho morto, de Marx. E outra capitulação ideológica se faz quando no calcular do rendimento nacional, soma mentirosa dos ganhos capitalistas com as remunerações do trabalho por tempo, se emprega a expressão “valor acrescentado no ano do trabalho”, com o deduzir do valor da produção (capital final para Marx) aquele das matérias primas e auxiliares e a renovação das instalações para o desgaste anual (capital constante de Marx). Aquele que em tal caso permanece como a soma do capital variável com o mais-valor/lucro; e admitir que tudo isso é “acrescentado pelo trabalho”, quer dizer admitir com Marx, que a riqueza morta, pessoal e nacional (que seja), não dá luz a nenhum aumento, crescimento, diferencial de valor, mas no máximo conserva aquele que o era de forma congelada; enquanto apenas o trabalho humano cujo ciclo gera aumentos do capital, valor, riqueza.

2.4. Claras posições de Marx

Tornamos claro com uma única citação de Marx o fato de que ele e nós não levamos em conta o orçamento, o capital fixo, a riqueza morta, e com isso já estabelecemos que o mesmo deve estar a disposição da sociedade ativa e não de um monopólio da classe privilegiada, que dele se utiliza para desfrutar do trabalho alheio. Nesta passagem de elementar aritmética já está toda a crítica da sociedade burguesa e a previsão de sua destruição.

Livro I, Capítulo 7, parágrafo 1. Depois de ter estabelecido um exemplo no qual 410 libras esterlinas de capital constante se somam a 90 libras de salário e 90 de mais-valor, formando ao todo 590 libras esterlinas de produto. Marx diz:

“O que é comparado com o valor dos produtos é o valor dos elementos consumidos em sua produção. Ora, vimos que a parte do capital constante investido que é constituída de meios de trabalho transfere apenas uma porção de seu valor ao produto, ao passo que outra porção é conservada em sua antiga forma de existência. Como esta última não desempenha nenhum papel na formação do valor, ela pode, aqui, ser deixada de lado. Sua inclusão no cálculo não faria nenhuma diferença. Tomemos nosso exemplo anterior, segundo o qual c = £410, e suponha que essa quantia consista de £312 de matéria-prima, £44 de matéria auxiliar e £54 do desgaste da maquinaria usada no processo, sendo o valor total da maquinaria empregada £1.054. Como valor adiantado para a formação do valor do produto temos de calcular, assim, apenas as £54 que a maquinaria perde devido a seu funcionamento e, desse modo, transfere ao produto. Se calculássemos nessa soma as £1.000 que continuam a existir em sua forma antiga, como máquina a vapor etc., também teríamos de calculá-la como parte do valor adiantado, de modo que ela apareceria nos dois lados da equação, do lado do valor adiantado e do lado do valor do produto, e obteríamos, respectivamente, £1.500 e £1.590. A diferença ou o mais-valor seria, tal como antes, £90. Por capital constante, adiantado para a produção de valor, entendemos sempre, salvo exceções evidentes, o valor dos meios de produção consumidos na produção”. (MARX, 2013, p. 369).

E aqui Marx escreve que até mesmo Malthus admite isso, com as palavras de sua obra Princípios de economia política, na qual diz: “Se incluímos o valor do capital fixo empregado no processo na parte do capital adiantado, temos, no final do ano, de computar o valor restante desse capital como uma parte da receita anual”. (MARX, 2013, nota de rodapé 26a).

Importa que tal ponto tenha entrado na cabeça da Fortune Directory e… dos comunistas marxistas, dado que Keynes, Spengler e companhia têm a pretensão de que até a propriedade fixa, e até o capital moeda “têm direito” à frações do rendimento ativo da produção social. E para a propriedade de terra o sustentava até Malthus. Por quase 150 anos, toda a questão permanece ali.

2.5. A ligação entre trabalho e valor

Adicionaremos bem próxima das edições universalmente conhecidas e “oficiais”, uma outra que serve para fazer entender outro ponto sobre o qual se engana implicitamente e até mesmo sem se perceber.

Dado que a conclusão da anatomia que Marx faz da produção burguesa é a teoria do mais-valor, muitos pensam que para ajustar tudo basta dizer: todo o rendimento social é mais-valor; se agora o distribuirmos entre aqueles que trabalharam, todo o comunismo já está construído.

Uma formulação diversa do mesmo descuido pode ser essa: Marx demonstrou válida a lei do valor, ou seja, o fato que o valor pelo qual uma mercadoria é trocada em média depende do trabalho social necessário para produzi-la. Mas inclusive demonstrou que apesar de todos esses contratos se encontrarem num impasse, o vendedor da força de trabalho, ou seja, o proletário, recebe muito menos do que forneceu. E agora o socialismo chega quando se paga pela a força de trabalho o seu verdadeiro valor, e assim se “abole” a extorsão do mais-valor do operário.

Marx mostrou tantas vezes que isto não é mais que um tolo imediatismo, e ultimamente nós o temos desenvolvido a propósito da crítica do programa de Gotha. Aquela tese insossa equivale a outra fórmula, aquela de Stálin: no socialismo vigora a lei do valor.

A tese justa é que no socialismo o trabalho não tem valor e não se paga. Não se deduz o valor do trabalho, por nenhuma mercadoria, e muito menos pela força humana de trabalho. Sobra justamente – um aparente paradoxo – o mais-valor, ou seja, o presente do trabalho, e morre o pagamento do trabalho, expressão milenar da servidão e da canalhice.

Façamos dizer isto também ao texto oficial e notório de Marx.

Livro II, Capítulo 1, Ciclo do Capital Monetário

“D-T é geralmente visto como característico do modo de produção capitalista. Porém, não pela razão apresentada, de que a compra da força de trabalho é um contrato de compra na qual fica acertada a entrega de uma quantidade de trabalho maior do que a necessária para a reposição do preço da força de trabalho, do salário — portanto, a entrega de mais-trabalho, a condição fundamental para a capitalização do valor adiantado ou, o que dá no mesmo, para a produção de mais-valor.”

Não, o motivo não é realmente este, mas sim que “em razão de sua forma [de contrato], uma vez que o trabalho é comprado com dinheiro, na forma de salário, e isso vale como característica da economia monetária. […] O característico não é que a mercadoria força de trabalho seja comprável, mas que a força de trabalho apareça como mercadoria.” (MARX, 2014, p. 118).

O socialismo não consiste em substituir com um contrato justo o atual injusto contrato salarial. O socialismo consiste em anular a relação trabalho-dinheiro. O salário não será elevado, mas suprimido. E isso é possível apenas quando a transição monetária desaparecer não apenas entre dinheiro e força de trabalho, mas sobretudo — e antes de tudo (veja o relatório dos Pentecostes sobre a crítica de Marx a Gotha) — entre mercadoria e mercadoria quaisquer que sejam. 25

Quando vigora a troca entre equivalentes e quando o valor se calcula pelo trabalho, se navega em pleno pântano capitalista. O marxismo faz suas leis enquanto explica e descreve a sociedade burguesa; e em todo passo avança o programa da sociedade que se seguirá ao seu abate e no qual a troca mercantil e monetária, a forma salarial, a lei do valor-trabalho serão – como Engels disse sobre o Estado – postas à mostra num museu de velharias.

A potência da dialética revolucionária salta por toda a leitura do mais velho texto de Marx, porque nela o “Homem Social”, servo do Capital, se eleva quebrando os limites da lei do valor; e a riqueza morta, o atual capital fixo – que na sociedade de classes não gera valor, mas dá força para roubá-lo – é permeado de uma nova vida extraída das raízes das gerações passadas e nas próprias maldições dos escravos e servos de então, se levantará de frente a espécie humana como fonte inexaurível de bem-estar e grande felicidade.

As leis científicas da nova sociedade se põem contra aquelas da presente em um irredutível contraste e as negam fórmula a fórmula, palavra a palavra: nós defendemos a noção das verdadeiras – e não falsas – leis da dinâmica produtiva capitalista, não porque tais leis devem sobreviver, mas porque essa clara noção é a principal arma para o extermínio da infame máquina social burguesa. É preciso estudar bem a estrutura e o movimento de uma máquina, que se quer fazer saltar pelos ares em um momento dado na história, limpando o caminho de seus destroços sinistros.

2.6. O mito da automação

Nos últimos anos, e sobretudo devido ao progresso técnico da indústria americana – para cuja economia menos pesa uma rápida renovação das instalações fixas, ainda hoje produtivamente válidas e portanto custosas –, é cada vez mais falado do automatismo na produção, que tem levado o nome de automação. Pareceu uma das novidades gigantes do nosso tempo, do segundo pós-guerra, a substituição em passos avassaladores do trabalho do homem com a ação de autômatos mecânicos sem vida e pensamento que dirigem a si mesmos, se autorregulam e autoguiam. Socialmente surge, como se fosse novo e original, o problema da redução dos trabalhadores industriais em drásticos relatórios, e do previsível alto desemprego que ocorreria impedindo as grandes massas de homens de ganhar dinheiro e até gastá-lo – por consequência – na compra da massa enorme de produtos saídos das instalações inanimadas dos estabelecimentos quase desertos, mas perenemente rotativos para tirar os produtos do forno e fornecer ao mercado.

Uma tal perda de lucidez colocou do mesmo lado os economistas do capitalismo e aqueles do lado oposto, do falso socialismo russo. Em igual distância da ciência revolucionária do marxismo, esses não sabiam que se tratava de um problema antes de tudo já posto; e então já resolvido por uma via mestre, muito diversa dos métodos estúpidos da “inteligência” burguesa. No jargão dessa sociedade decadente, um problema é uma chateação qualquer, uma nova “questão” que se junta à rotina do dia-a-dia, que se trata de se esquivar desse obstáculo, cair fora com um conjunto qualquer de clichês, de modo que, tendo se livrado do problema sem atrapalhar seus próprios afazeres, possa se gabar de tê-lo “resolvido”.

Os capitalistas desta vez levaram a melhor, pondo a frente a sacramental “diminuição dos custos de produção”, que seriam a salvação da sociedade científica e mecânica, e se prestaria nas próprias tortuosas fórmulas para elevar o índice de vida médio, com a ilusão de apagar qualquer choque de classes.

Fácil será silenciar essas pessoas e sua desajeitada busca emulativa pela fórmula soviética do “pleno emprego”, e conduzir ao absurdo a própria doutrina sobre a democratização do capital. Uma democracia econômico-jurídica é, faz séculos, um absurdo histórico: a única forma que poderia em abstrato corresponder-lhe é aquela da micro-empresa produtiva, da divisão dos meios de produção entre os trabalhadores individuais. Pior que a morte.

Mas aqueles que permaneceram no constrangimento diante da perspectiva de uma produção totalitariamente automática são os inúmeros marxistas de meia-tigela, que abundam entre as legiões esparsas daqueles não ligados ao stalinismo e ao pós-stalinismo. Como faremos, dizem esses pobres homens, para sustentar que todo o valor, que a sociedade soma em todo ciclo de sua dotação deriva do trabalho dos assalariados, quando a produção não exigir mais trabalho nem qualquer esforço, não só de natureza muscular mas nem mesmo intelectual, dado que as máquinas são integradas de aparelhos que as dão capacidade de calcular e projetar tudo? Cairá a lei do trabalho que gera valor, a doutrina do mais-valor, e toda a nossa construção crítica da economia e da forma de produção capitalista…

Agora o fato é esse, embora os imediatistas – que são aqueles que colam pedestremente a subtração cotidiana do mais-valor do operário individual, este antagonismo contábil fechado em um envelope, para o confronto entre duas épocas, duas formas de produção, dois mundos, que tem com o episódio pecuniário uma ligação lógica, mas dialeticamente mediata das passagens revolucionárias sobre antíteses de uma amplitude muito diferente de respiração, sobre arcos imensos de tempos, de espaços e de modos – tenham se condenado a não compreendê-lo para correr atrás de filosofias da exploração e da autonomia do executor frente ao dirigente; o fato é este: que estávamos esperando isso há um século.

Livremo-nos das leis do valor, da troca equivalente e do mais-valor: com sua queda no vazio desmorona a própria forma de produção burguesa. As primeiras valem enquanto vivem as segundas, e quando a ciência e a tecnologia, por mais que um secular monopólio de classe, quebrem-nas, não será mais que o exemplo supremo da revolta das forças produtivas contra as formas que devem ruir.

Essa doutrina do automatismo na produção se reduz a toda a nossa dedução da necessidade do comunismo, fundada sobre os fenômenos do capitalismo.

Vamos extraí-la do texto original de Marx, mas ela é clara por si mesma e faz tempo.

2.7. Processo de trabalho e maquinismo

Toda a nossa demonstração pode ser obtida do texto “oficial” do Capital citando os capítulos sobre o Trabalhador parcial e sua ferramenta, a manufatura e a grande indústria (tema abordado na reunião de Roma, em 5 de julho de 1952), 26 mas o texto que temos agora é particularmente expressivo, e sem motivos para recato em mostrar as ligações estritas entre a dinâmica interna presente do capitalismo e sua derrubada revolucionária, movido não pelo fato de que esse seja “muito explorador”, mas pela necessária e violenta geração de uma forma que o negue frontalmente, invertendo todas as suas características.

Para evitar mal-entendidos em relação a mesma reivindicação insana de que o marxismo seja uma doutrina em “contínua evolução”, e que os textos de vários anos tenham sido abandonados, como construções logo esquecidas (!) ou substituídas, é bom estabelecer que nas milhares de páginas das quais tratamos em nossa elaboração, a redação segue a mesma linha do Capital, e que todas essas teorias são desenvolvidas com a mesma substância e forma, com a mesma exata terminologia e com as mesmas expressões matemáticas: e com todos os desenvolvimentos do Segundo e Terceiro livros dO Capital como organizados por Engels. Desde as páginas do capítulo Sobre o capital (que tem as mesmas seções da obra publicada posteriormente: “O Processo de Produção do Capital, O Processo de Circulação do Capital, O capital Produtor de Juros. A Transformação do Mais-valor em lucro, Apêndice sobre a história das doutrinas econômicas[Teorias do Mais-valor]) Seria fácil citar muitas páginas na qual a mesma expressão tratada a propósito dos três termos que formam o capital circulante (Constante+Variável+Mais-Valor=Produto total) é dada de forma narrativa, aritmética e algébrica.

Portanto, o trecho sobre a produção automática é “válido” não apenas para o pensamento marxista de 1857, mas até para o de Marx até sua morte, e dos marxistas até 1957 e depois.

Partimos dessa página da edição alemã de Moscou:

“Assimilado ao processo de produção do capital, o meio de trabalho passa por diversas metamorfoses, das quais a última é a máquina ou, melhor dizendo, um sistema automático da maquinaria” (MARX, 2011, p. 929).

Fazemos com o leitor o seguinte acordo: Nos reservamos a possibilidade de fazer nossos comentários, mas os destaques são sempre do texto original e preferimos adotar o uso das maiúsculas no início dos substantivos como fazem os alemães. Continua o texto:

“(Sistema da maquinaria; o automático é apenas a sua forma mais adequada, mais aperfeiçoada, e somente o que transforma a própria maquinaria em um sistema), posto em movimento por um autômato, por uma força motriz que se movimenta por si mesma; tal autômato consistindo em numerosos órgãos mecânicos e intelectuais, de modo que os próprios trabalhadores são definidos somente como membros conscientes dele. Na máquina e mais ainda na maquina[ria] como um sistema automático, o meio de trabalho é transformado quanto ao seu valor de uso, i.e., quanto à sua existência material, em uma existência adequada ao | capital fixo e ao capital como um todo, e a forma em que foi assimilado como meio de trabalho imediato ao processo de produção do capital foi abolida em uma forma posta pelo próprio capital e a ele correspondente.” (MARX, 2011, p. 929).

O autor que já estabeleceu que o instrumento do trabalho, tornado capital fixo, perdeu todas as características que tinha na produção imediata (ou fragmentada, a qual gostariam de retornar aqueles que chamamos por tanto, de imediatistas ou de carrascos). 27

“A sua differentia specifica não é de forma alguma, como no meio de trabalho, a de mediar a atividade do trabalhador sobre o objeto; ao contrário, esta atividade é posta de tal modo que tão somente medeia o trabalho da máquina, a sua ação sobre a matéria-prima ” (MARX, 2011, p. 929-30).

Não podemos renunciar à eloquência dessa passagem, sinalizando por um momento a pena que produzem todos aqueles que ladram: diante do automatismo moderno, é preciso “reavaliar” todas as posições marxistas!

“Não é como no instrumento, que o trabalhador anima como um órgão com a sua própria habilidade e atividade e cujo manejo, em consequência, dependia de sua virtuosidade. Ao contrário, a própria máquina, que para o trabalhador possui destreza e força, é o virtuose que possui sua própria alma nas leis mecânicas que nela atuam e que para seu contínuo automovimento consome carvão, óleo etc. (matérias instrumentais), da mesma maneira que o trabalhador consome alimentos. A atividade do trabalhador, limitada a uma mera abstração da atividade, é determinada e regulada em todos os aspectos pelo movimento da maquinaria, e não o inverso”.

E aqui, atenção: “A ciência, que força os membros inanimados da maquinaria a agirem adequadamente como autômatos por sua construção, não existe na consciência do trabalhador, mas atua sobre ele por meio da máquina como poder estranho, como poder da própria máquina.” (MARX, 2011, p. 930).

Sobre estas palavras escritas há agora um século, quando as “ideias do Século XVIII” de que Marx fala na introdução tinham sobre o mundo um poder de sugestão imenso, e constituíam em todo caso uma etapa histórica inegável ainda ameaçada pelos retornos das restaurações, reflitam todos os que hoje se prostram na adoração à Ciência em geral, e convidam os trabalhadores a fazê-lo, e neles instilam o temor reverencial, esquecendo que ela é antes de tudo ciência e superioridade tecnológica, monopólio de uma minoria exploradora; e mais ainda que enquanto as relações de produção permanecerem mercantis, monetárias e salariais, todo o Sistema de maquinaria automática forma um monstro que esmaga sob o peso de sua opressão uma humanidade escrava e infeliz, e este é o Monstro que domina todo o quadro traçado por Marx da sociedade presente, o próprio Capital, despersonalizado, e até mesmo “desclassado” (ou sem classe) 28 como em nossas frequentes conclusões, em resposta ao delírio de que em um terço do mundo tenha desaparecido a Classe Inimiga, a Burguesia.

2.8. A aliança Ricardo-Marx

A contraposição fundamental do sistema marxista está aqui em evidência. Todo valor presente na sociedade capitalista deriva do trabalho humano. Quando supomos que estamos em uma economia totalmente capitalista, todo valor é capital e sob esta expressão histórica indicamos toda a “riqueza” de uma sociedade burguesa, a categoria em torno da qual começaram a trabalhar os economistas clássicos do novo regime. Toda riqueza, disseram eles, é tal enquanto é capital, e tem valor enquanto acumulação de trabalho humano.

No início histórico da moderna sociedade burguesa, uma aliança “científica” – ou se preferimos, ideológica – temporária teve curso, entre a ciência econômica burguesa, agora nova, virgem, revolucionária, e a germinante economia teórica ligada à nova classe proletária que, na esteira da burguesia, fazia sua entrada na história. As duas ideologias tinham naquela virada um inimigo comum, ou seja, a ideologia social dos anciens régimes surgida dos estágios de produção que precederam a manufatura capitalista e sua forma suprema, a indústria mecânica. As figurações pré-industriais dos fisiocratas, como no famoso Tableau de Quesnay 29 (veja nossa série sobre a questão agrária), colocam a fonte da riqueza apenas na natureza (physis em grego) e quando muito no encontro entre o trabalho humano e a potência natural: o cultivo agrário.

No Tableau, um aumento da riqueza só pode ser esperado a partir do desenvolvimento da agricultura, sendo indicadas como classes produtivas a dos proprietários de terras e dos trabalhadores da gleba. Em uma única classe, dita dos improdutivos, Quesnay relegou em um amontoado apenas aquelas que de fato, social e politicamente, eram aliados na época da Grande Revolução: industriais e operários. Em toda produção de mercadorias inorgânicas, o valor e a riqueza passavam sem gerar ganhos ou rendimentos; restava no final do ciclo tanta riqueza monetária quanto a que foi fornecida.

Burgueses e proletários, antes de disputarem entre si sobre a origem dos aumentos da riqueza, atacaram juntos a visão fisiocrática, e com justa razão, fizeram nascer valor e riqueza – e modernamente capital – somente à manufatura ou, no campo, da iniciativa industrial agrária, com o arrendatário burguês e o assalariado rural. Contestaram o rentista fundiário como sendo apenas o recoletor arbitrário de uma parte do mais-valor nascida na iniciativa burguesa.

Igual posição possuem as escolas de Ricardo e Marx com relação aos mercantilistas, os quais, nos primórdios das formas capitalistas teorizaram que o crescimento da riqueza geral tinha sua fonte não na produção – rural ou manufatureira – mas sim na troca das mercadorias no mercado interno e sobretudo no internacional, onde se geravam vastos lucros, como parecia nos séculos de colonialismo e das guerras comerciais. Também contra estes, o contra-ataque de Ricardo e de seus seguidores encontra Marx nas trincheiras: a troca e a circulação devem ser sustentadas como improdutivas contra os mercantilistas, tanto quanto a propriedade fundiária contra os fisiocratas.

Como na história da luta de classes, a guerra doutrinal entre a clássica economia burguesa e a economia marxista nasce dialeticamente como uma aliança: do lado capitalista se pensava em eternizar a solidariedade dos assalariados com o capital empresarial; do lado marxista sabia-se desde o início que a solidariedade não era mais do que contingente e o antagonismo definido até então no seu curso histórico era inabalável; Marx defendeu as teses de Ricardo e suas leis: valor que surge apenas do trabalho, aumento do valor, da riqueza e do capital que nasce do mais-valor, equivalência na troca geral de todas as mercadorias. Mas Ricardo, pensando como um iluminista do século XVIII, sustentava que essas leis eram o finalmente obtido “ordenamento natural da sociedade humana”; Marx bem sabia e estabeleceu para sempre que se tratava das leis de uma grande fase histórica de transição, o modo capitalista de produção que, como teve um início, também teria um fim, e que as leis da economia futura seriam muito diferentes. Marx defendia as características reais da sociedade industrial capitalista em suas próprias “diferenças específicas” frente às colocações reacionárias. Ricardo as defendia como o permanente ideal humano do ordenamento econômico; não conseguia vislumbrar o desenhar da segunda formação, da formação antagonista subsequente entre burgueses e proletários, entre capitalistas e comunistas.

Em vão dizer-se marxista se não compreende essa posição dupla na qual aplicar corretamente a lei da troca de valor e mais-valor aos fenômenos do mundo e tempo burgueses, significa diretamente fazer coincidir a vitória do programa proletário e comunista com o colapso dessas leis próprias de um mundo transitório da produção e da economia.

2.9. Trabalho objetivado e trabalho vivo

Para os economistas da escola clássica ricardiana, quando toda a riqueza da sociedade assume a forma de capital se admite que o capital possa aumentar-se – fenômeno base de toda a sociedade moderna – unicamente através do trabalho apenas parcialmente consumido (no máximo sustentando que a útil renúncia ao consumo ou a abstinência possam ser praticados também pelos componentes da classe empreendedora).

Neles já está a distinção clara entre o capital fixo e capital circulante, e Marx já tinha estudado em profundidade todas as ideias do século XIX e anteriores sobre esse ponto. Com eles, pode-se dizer muito bem que na produção são utilizados tanto o capital fixo quanto o circulante, na medida em que tratamos da produção de mercadorias. Mas se se trata de aumentar a produção das mercadorias, mesmo que devido ao crescimento da população, entra-se no processo de produção do capital, aquilo que é dominado pela primeira vez e de forma completa na construção teórica de Marx. Assim, Marx diz que o capital fixo não produz capital adicional (ou valor) mas que ele surge apenas do capital circulante, e de uma de suas partes que é o capital variável, ciclicamente reservada à aquisição da força de trabalho.

Todo o capital e o valor é, em sua origem, trabalho humano. Mas apenas parte do capital circulante que definimos como variável é trabalho atual e vivo.

Sabemos que o capital constante circula, visto que assume alternativamente a forma monetária no ciclo de aquisição das matérias primas, materiais auxiliares, renovações das instalações fixas da parte desgastada, sendo em seguida deduzido do preço de venda dos produtos. Mas é apenas o capital-trabalho, ou seja, a despesa salarial, que entra na circulação contra uma soma de dinheiro, saindo aumentado com o mais-valor. Essa parte do capital é trabalho ativo, fecundo e vivo, tanto porque é obra do fator vivo da produção (o homem) quanto por fecundar-se e gerar as características daquele que vive.

O capital constante que circula, e o capital fixo que é também constante quantitativamente mas não circulante nos ciclos sucessivos – apenas uma vez no momento da construção das instalações ou das máquinas – não deixam de ser um valor, um que não consegue gerar outro valor, mas que nasce e sai igualmente de um trabalho dos ciclos anteriores. Marx portanto costuma chamá-lo de trabalho morto, trabalho congelado e, na passagem a qual nos referimos, trabalho objetivado (materializado em outro lugar), ou vergegenständlichte arbeit. Em alemão, Gegenstand quer dizer Objeto; aquele que está frente ao (gegen) sujeito.

Estamos lendo em Marx o romance do trabalho objetivado.

De acordo com Ricardo, a despeito dos economistas de seu tempo que ele e Marx reduzem ao rídiculo – e dos economistas do nosso que levantam defesas vãs das causas perdidas e condenadas – o Capital fixo e em primeiro lugar a máquina, é relegado à valor estéril, incapaz de procriar, privado de vida, de alma, inanimado como Marx diz em vários momentos.

Encerraremos cada etapa da acumulação de valor a valor, retornando-a ao reino do trabalho vivo, parte variável do capital circulante, fonte inexaurível de fecundidade e gerador de vida nova e mais ampla.

Ao negar aos contrarrevolucionários contemporâneos de Ricardo – que flertavam com o medievo feudal – assim como aos nossos contemporâneos – que flertam com a arcaica sociedade do Capital – o direito de dar vida ao trabalho objetivado (ao Autômato mecânico), nós o desonramos pelo mesmo motivo que Ricardo o desonrara; mas a grandeza dialética da nossa construção é que uma vez que o novo cataclisma revolucionário encerra o ciclo que Ricardo via como eterno, o frio monstro do trabalho materializado muda o seu rosto, sua tarefa e seu destino; ele retoma (se assim ousamos dizer, em presença de uma formulação maravilhosa na qual Marx acreditou depois de apagar algumas luzes ofuscantes) uma alma nova e humana, ressuscitada do pranto e do luto das gerações oprimidas pelo sistema de classes, rompe com a maldição que ligava Ciência e opressão social, e permite que se estreite a ligação entre o saber da espécie, conquistado em uma inenarrável série de lutas, e o bem-estar seguro do homem social, do homem-espécie, livre das misérias, das infâmias individualistas, privatistas e subjetivistas. Talvez até ao romantismo de Karl Marx tenhamos de pagar tributo, ao transformarmos o trabalho vivo em um morto objeto, para depois resgatá-lo com linguagem profética, como um dom de felicidade e de vida. Mas isso não se tratou de uma coqueteria hegeliana como ele escreveu mais tarde sem se arrepender, mas sim de uma poderosa ciência experimental, se hoje com suas páginas respondemos às deficiências e aos delírios de uma forma social que chegou à putrefação. E elas vibram de verdade e, embora seculares, lançam uma luz atual desconhecida sobre as elucubrações deste tempo.

Fica claro para nós e para os leitores que o capital fixo, máquina, sistema automatizado de maquinário, instalação produtiva, instrumento de produção na forma capitalista, trabalho objetivado ou morto são, no curso dessa discussão, termos equivalentes.

2.10. Prejuízos nefastos do trabalho morto

O texto de Marx será publicado por inteiro em seu próprio tempo, algo que não podemos fazer agora; aqui nos limitaremos a trazer algumas passagens, dando-lhes uma ordem que facilita a dialética, apaga as luzes e potencializa a exposição excepcional. Mas não vemos – no nosso trabalho de alunos-divulgadores estritos – outra via para desviar do eterno penhasco: Marx é muito difícil; os textos não se entendem; o autor troca de tese de página em página; o desenvolvimento é denso de intrigantes contradições (!!). De fato o jogo da dialética é aqui tão intenso e com tão alto potencial que o personagem que nomeamos aqui com o objetivo de simplificar, de Trabalho objetivado ou Capital fixo, em quase todos os momentos aparece como um paladino e um Nero, como exterminador e redentor.

Nós os levaremos ao proscênio, dos pobres leões de chácara, antes de tudo nas vestes sinistras que usa no período do e sob o regime capitalista. Depois o faremos reaparecer entre os estrondos já insufocáveis da Revolução Comunista:

“a apropriação do trabalho vivo pelo trabalho objetivado […] [é] inerente ao conceito do capital […]”. (MARX, 2011, p. 931).

“o trabalho objetivado se contrapõe ao trabalho vivo no próprio processo do trabalho como o poder que o governa […]”. (MARX, 2011, p. 931).

“A assimilação do processo do trabalho como simples momento do processo de valorização do capital também é posta quanto ao aspecto material pela transformação do meio de trabalho em maquinaria e do trabalho vivo em mero acessório vivo dessa maquinaria, como meio de sua ação”. (MARX, 2011, p. 931).

“poder [do capital fixo] que, de acordo com sua forma, o capital é como apropriação do trabalho vivo”. (MARX, 2011, p. 931).

Estas proposições, essas que apenas mudamos de ordem, são de fácil compreensão se lidas em relação com a passagem histórica presente na mente do escritor. No nosso caso, a passagem do trabalho artesanal ao trabalho associado à indústria mecânica. No primeiro caso, qual a “forma de apropriação”? (O leitor aqui pode confrontar com o escrito Propriedade e Capital na Revista Prometeo, primeira série). 30 O produtor artesão é proprietário de seu instrumento de trabalho: isto quer dizer que também é proprietário do lugar de trabalho e da matéria prima que transforma (tem no ciclo dinheiro suficiente para comprá-la). A consequência é que o trabalhador parcelar detém o produto manufaturado, o vende onde quiser e assume todo o preço da mercadoria-produto como seu. Esse é um verdadeiro processo de trabalho, ou seja, um processo de produção de mercadorias.

Mas dessa forma logo as forças produtivas não poderão se desenvolver e passa-se à grande maquinaria. O produtor não é proprietário nem da máquina, nem da fábrica, nem da matéria-prima; troca sua força de trabalho, sua única posse, por um salário que serve para se alimentar e criar sua prole (proletário). Consequência: quem se apropria do produto? Talvez o trabalhador? Não, nem mesmo uma migalha: tudo vai, a resposta da propaganda fácil é óbvia, para o capitalista, o patrão, o burguês. Marx também se servirá disso muitas vezes. Mas aqui sua construção sobe para alturas nas quais qualquer concessão ao sucesso imbecil pelo caminho do mínimo esforço é desdenhada. A fórmula jurídica é desprezada. Quem se apropria do capital, produto do trabalho vivo (mais-valor) não é representado como pessoa humana nem como classe humana: é o Monstro, o Trabalho objetivado, o Capital fixo, monopólio e fortaleza da Forma Capital em si mesmo, Besta sem alma e por fim sem vida, mas que devora e assassina o trabalho vivo, o trabalhos dos vivos e os vivos.

Por que esse Capital por excelência é medido a partir do “produto” cíclico (aquele faturamento dos contadores)? Porque é todo o produto que é apropriado pelo homem, cadáver, besta, ou Coisa (a Empresa!), que detém o monopólio proprietário do Capital fixo.

Aqui, o doente da dialética renal correrá o risco de sufocar no imediatismo. A reivindicação não será a de retransformar o processo de produção do Capital em um processo de Trabalho? O Trabalho imediato é, de fato, aquele que controla, domina (em vez de ser dominado pela máquina e por fim pelo autômato arrepiante), a Matéria Prima, o Utensílio e aquilo Manufaturado, o Produto.

Mas recair nisso, mesmo que ficções monetárias substituíssem a disposição material do que hoje é Capital constante e Produto, não é mais que fazer girar ao contrário a roda da história, condenar o trabalhador “livre” a perder mais horas de sacrifício por um mesmo padrão de vida.

Agora o problema histórico e humano é de reduzir as horas de trabalho, o trabalho necessário. No sistema artesanal, não há explícito mais-trabalho (e é por isso que a sociedade fica presa a um limite estreito), mas o trabalho necessário é grandíssimo, mais do que no sistema industrial mecânico onde ocupa toda a jornada de trabalho.

2.11. Trabalho morto e ciência morta

Da forma artesanal para a industrial se passa; ninguém pode contestar isso e fazer das revoltas ludistas contra as máquinas um programa pelo desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia. Qual é, no marxismo, a relação entre Ciência teórica e aplicada e Trabalho objetivado, entre Ciência e Capital?

Marx faz uso aqui de uma expressão formidável: o “cérebro social”. Primeiro a tecnologia e depois a ciência se transmitem de geração em geração como um dote do Homem Social, da Espécie, no qual todos os seus indivíduos trabalharam e colaboraram. Em nossa construção, o Profeta, o Sacerdote, o Explorador e o Inventor, caminham em direção a uma liquidação paralela. O Homem Social nessas páginas é chamado então de Indivíduo Social, cujo sentido não é “pessoa humana” como célula da Sociedade; mas sim a sociedade humana tratada como um organismo único que vive uma só vida (dessa forma entra na ciência o mito ingênuo e sublime da Imortalidade, atribuído pelo pensamento humano infantil ao indivíduo, assim como hoje Direito e Economia pretendem se basear no indivíduo, indo em direção a um similar colapso). Esse organismo, cuja Vida é a História, possui seu Cérebro, órgão construído a partir de sua função milenar, e que não é patrimônio de alguma Caveira e seu Crânio. O Saber da espécie, a Ciência, bem mais do que o Ouro, não são para nós heranças privadas e, em Potência, pertencem totalmente ao homem Social.

Portanto, nosso texto se refere à sorte da Ciência humana sob o miserável regime mercantil, que até hoje a sufoca por todo o Planeta:

“A acumulação do saber [Ciência] e da habilidade, das Forças Produtivas gerais do Cérebro social, é desse modo absorvida no capital em oposição ao Trabalho, e aparece consequentemente como qualidade do Capital, mais precisamente do Capital Fixo, na medida em que ele ingressa como Meio de Produção propriamente dito no Processo de Produção.” (MARX, 2011, p. 932).

Aqui, Marx rebate que o Capital Fixo aparece como a forma mais adequada do Capital em geral “na medida em que é considerado em sua relação consigo mesmo”. Mas, “segundo a relação do Capital com o exterior, o Capital circulante aparece, em relação ao Capital fixo, como a Forma adequada do Capital”.

Socialmente, politicamente, historicamente, como Potência dominante, o Capital possui a forma do Maquinário, do Capital fixo. Economicamente, como medida no processo de produção de Capital a partir do Capital (id est, a partir do Trabalho vivo), ele assume sua forma principal (adequada) no Capital circulante, que corresponde ao Produto social global de um ciclo. Confirmada mais uma vez essa posição dialética das palavras de Marx, retornamos ao personagem do Capital fixo.

“Na medida em que, no Capital fixo, o meio de trabalho, sob seu aspecto material, perde sua forma imediata e se defronta materialmente com o Trabalhador como Capital. O saber aparece na Maquinaria [Maquinismo] como algo estranho, externo ao trabalhador; e o Trabalho vivo é subsumido ao Trabalho objetivado que atua autonomamente. O Trabalhador aparece como supérfluo desde que sua ação não seja condicionada pelas necessidades [do capital] ”. (MARX, 2011, p. 933).

O capitalismo ainda está em cena, mas a vergonha não é toda dele. “O processo de produção em seu conjunto, entretanto, não aparece como processo subsumido à habilidade imediata do trabalhador [artesão], mas como aplicação tecnológica da Ciência. Por isso, a tendência do Capital é conferir à Produção um caráter científico, e o trabalho direto é rebaixado a um simples momento desse processo […] Ele [O Capital] pressupõe um determinado desenvolvimento histórico das forças produtivas – dentre estas forças produtivas, também a ciência –, por outro lado, as impulsiona e força”. (MARX, 2011, p. 933).

Encerramos essa parte historicamente limitada ao capitalismo com uma descrição final da ligação entre Ciência e Capital:

“A apropriação do trabalho vivo pelo Capital também adquire na Maquinaria [Maquinismo] uma realidade imediata: por um lado, é a análise originada diretamente da Ciência e a aplicação de leis mecânicas e químicas que possibilitam à máquina executar o mesmo trabalho anteriormente executado pelo trabalhador. Contudo, o desenvolvimento da Maquinaria [Maquinismo] por essa via só ocorre quando a grande indústria já atingiu um estágio mais elevado e o conjunto das Ciências já se encontra cativo a serviço do Capital […]. A invenção torna-se então um negócio e a aplicação da ciência à própria produção imediata, um critério que a determina e solicita [1857 ou 1957?] […] um modo de trabalho determinado aparece aqui diretamente transposto do Trabalhador para o Capital na forma da Máquina, e por meio dessa Transposição sua própria capacidade de trabalho é desvalorizada. Daí a luta dos Trabalhadores contra a maquinaria. O que era Atividade do Trabalhador vivo devém Atividade da Máquina. Assim, a Apropriação do trabalho pelo Capital, o Capital absorvendo em si o trabalho vivo, se apresenta ante o Trabalhador de maneira cruamente perceptível – ‘como se tivesse Amor no Corpo’”. (MARX, 2011, p. 940).

2.12. Palingênese do trabalho objetivado

Não escolheremos outras representações da relação capitalista entre o Trabalho morto e o Trabalho vivo depois da imagem do monstruoso Abraço. Marx introduz aqui pela primeira vez o capotamento revolucionário dessa função obscena do Monstro-Autômato com um título lapidário, que esmaga de uma vez por todas (editores soviéticos de 1953, vossa surdez doutrinal se estendia aos sibilos dos projéteis dos pelotões de execução?) a demência teórica do Divo Stálin que é essa: Contradição entre o fundamento da produção burguesa (a medida do valor) e seu próprio desenvolvimento.

Portanto, na sociedade pós-burguesa, não se tratará de “medir justamente o valor em função do tempo de trabalho” como acreditam os simplórios, mas sim de acabar com a medida do valor (Wertmaß)

O texto do parágrafo repete isso de forma não menos crua:

“A troca de Trabalho vivo por Trabalho objetivado, i.e., o pôr do Trabalho social na forma de Oposição [Antagonismo] entre Capital e Trabalho assalariado, é o último desenvolvimento da relação de valor e da produção baseada no valor.” (MARX, 2011, p. 940).

Não apenas no desenvolvimento que apresentamos a medida do valor de troca derivada do tempo de trabalho é válida somente para uma economia salarial e antagonista, mas o não distante declínio da medida de valor retirada do trabalho é potencialmente preparado a partir dessa mesma aparição da indústria mecânica, sobretudo quando essa se eleva a sistema automático do maquinismo. E teríamos agora, nós, medo da automação como de uma batalha doutrinária perdida? Seríamos realmente ignorantes quanto aos objetivos primeiros de nossa guerra de classe!

Nos inícios do capitalismo se podia sustentar que a “riqueza real” é medida a partir da massa de trabalho imediato, pelo tempo de trabalho médio:

“No entanto, à medida que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza efetiva passa a depender menos do tempo de Trabalho e do quantum de Trabalho empregado que do poder dos Agentes [mecânicos] postos em movimento durante o tempo de trabalho, Poder [Potência] que – sua poderosa efetividade –, por sua vez, não tem nenhuma relação com o tempo de trabalho imediato que custa sua produção, mas que depende, ao contrário, do nível geral da Ciência e do progresso da Tecnologia, ou da aplicação dessa Ciência à Produção.” (MARX, 2011, p. 941).

Um tal discurso – inerente aos nossos textos há um exato século – nos permite dizer que embora o caráter antagônico (de classe, salarial, mercantil) do processo de produção não esteja ainda superado, ele atinge ao máximo a possibilidade de tal superação quando na indústria se atua com automação em escala imensa; e em virtude dessas mesmas deduções, quando aos poderosos agentes mecânicos se soma o último, verdadeiramente desproporcional de modo gigantesco em relação a força muscular do homem: a energia nuclear.

O momento de matar a lei do valor e a medida do valor – muito mais na América do que na Rússia dos cambistas Stalin e Khrushchev 31, que lançaram sobre a via morta o expresso da Revolução – verdadeiramente chegou.

Que vai ocorrer, já sabemos há mais de um século. E hoje sentimos uma versão mais forte disso, na qual vemos sucumbir, ao mesmo tempo: a lei do tempo de trabalho como valor de troca, o antagonismo de classe, a divisão social do trabalho, a produção mercantil e o trabalho assalariado-necessário, ou seja, o trabalho assalariado-forçado. A mudança de cenário ocorre com a rapidez digna do Epílogo.

“Não é mais o Trabalhador que interpõe um Objeto natural modificado [o instrumento de trabalho] como elo mediador entre o Objeto [a matéria trabalhada] e si mesmo; ao contrário, ele interpõe o Processo natural, que ele converte em um Processo industrial, como meio entre ele e a Natureza inorgânica, da qual se assenhora. Ele se coloca ao lado do processo de produção, em lugar de ser o seu agente principal”. (MARX, 2011, p. 941).

O texto apresenta uma terceira etapa, que é a Negação do final conhecidíssimo do Primeiro Livro d’O Capital. Passando por cima do avarento parêntese 32 capitalista e salarial, o trabalhador é tornado “livre”, ou seja, “patrão” do processo de trabalho e de produção. Ele novamente “maneja” o utensílio e imprime a sua capacidade e inteligência no “produto”. Mas a mão e o trabalhador, não são mais do mesmo indivíduo, mas sim da espécie, que com sua mão-cérebro conduz à ação sobre a natureza um processo “Mecânico” criado a partir da posse das leis naturais. Acreditamos que as palavras que “inserimos” não parecem variações gratuitas, mas que preparam a árdua leitura da sequência.

2.13. A transformação explodiu

“Nessa transformação, o que aparece como a grande coluna de sustentação da Produção e da Riqueza não é nem o Trabalho imediato que o próprio ser humano executa nem o tempo que ele trabalha, mas a Apropriação de sua própria Força produtiva geral, sua compreensão e seu Domínio da Natureza por sua existência como Corpo social – em suma, o desenvolvimento do indivíduo social”. (MARX, 2011, p. 942).

Marx fala em termos gerais sobre a riqueza como uma característica tanto da sociedade burguesa quanto da socialista, também demonstrando os aspectos opostos antes e depois da transformação. Mas define com dureza a riqueza capitalista:

“O roubo de tempo de trabalho alheio, sobre o qual a riqueza atual se baseia, aparece como fundamento miserável em comparação com esse novo fundamento desenvolvido, criado por meio da própria grande indústria.” (MARX, 2011, p. 942).

Foi apresentada em nossa reunião, a proposta puramente terminológica de deixar a palavra “riqueza”, derivada de “rico” em sua forma atual de subtração do valor alheio e do trabalho alheio. Propriedade e riqueza fazem sentido para o indivíduo na medida em que ele pode impedir que outros acessem o seu bem. Elevando o indivíduo, o homo economicus deformado de hoje, ao Corpo Social, não existem mais medidas de tempo e valor, e por isso não há subtrações, não existem ricos e riqueza, e aquela da Sociedade, da Espécie, do Corpo Social imortal – pela primeira vez esculpido com traços que fazem empalidecer os Padres Eternos de Michelangelo – não será chamada por nós de Riqueza, mas de Sabedoria, Eficiência e Potência, sob responsabilidade não dos homens, mas da Realidade e da Natureza. A passagem segue, no que seríamos levados a definir como o Juízo Final sobre a Sociedade Mercantil. Na Guerra doutrinária, que ainda não é a guerra das armas, já a rebatemos de volta ao seu Passado sinistro. “Tão logo o trabalho na sua forma imediata deixa de ser a grande Fonte da Riqueza, o Tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser a sua Medida e, em consequência, o Valor de troca deixa de ser [a medida] do valor de uso [Stálin! Stálin!]. O Trabalho excedente da Massa deixa de ser Condição para o Desenvolvimento da riqueza geral, assim como o não trabalho dos poucos deixa de ser Condição do desenvolvimento das forças gerais do Cérebro humano.” (MARX, 2011, p. 942).

Os raios do Juízo Final se abatem sobre seus alvos!

“Com isso, desmorona a Produção baseada no Valor de troca, e o próprio Processo de produção material imediato é despido da Forma da precariedade e contradição. [Dá-se] o livre desenvolvimento das individualidades e, em consequência, a redução do Tempo de trabalho necessário não para pôr Trabalho excedente, mas para a redução do Trabalho necessário da Sociedade como um todo a um mínimo, que corresponde então à formação artística, científica etc. dos indivíduos por meio do Tempo liberado e dos meios criados para todos eles.” (MARX, 2011, p. 942).

O texto aqui desenha a contradição a qual é condenado o Capital. Por um lado, Ele, tendo colocado o tempo de trabalho como medida da riqueza e sua única fonte (puro Ricardo) deve aumentar o tempo de trabalho total, e quando o necessário (o trabalho pago) diminui, ele exalta o tempo excedente, sendo este para ele uma condição de vida e morte (processo de produção progressiva de outro Capital). Por outro lado, ele desperta todas as forças da ciência e natureza como aquelas da organização e da circulação social, e estabelece relutantemente as bases para reduzir a criação da riqueza independentemente do tempo de trabalho a ela destinado.

Uma vez quebrada a dominação de classe do Capital, o nosso Personagem, o Trabalho morto e objetivado, o Capital fixo de antes, antes um instrumento escravizante do Trabalho vivo assume uma função oposta, e aqui registramos seu triunfo:

“A Natureza não constrói máquinas nem locomotivas, ferrovias, telégrafos elétricos, máquinas de fiar automáticas etc. Elas são produtos da indústria humana; material natural transformado em órgãos da vontade humana sobre a Natureza ou de sua atividade na Natureza. Elas são órgãos do cérebro humano criados pela mão humana; força do saber objetivada. O desenvolvimento do Capital fixo indica até que ponto o saber social geral, conhecimento, deveio força produtiva imediata e, em consequência, até que ponto as próprias condições do processo vital da sociedade ficaram sob o controle do intelecto geral e foram reorganizadas em conformidade com ele”. O capital fixo não indica mais – e aqui nos permitam inserir isso – a subjugação brutal do vivo Trabalho, mas indica “até que ponto as Forças produtivas da sociedade são produzidas, não só na Forma do saber, mas como Órgãos imediatos da Práxis social; do Processo real da vida”. (MARX, 2011, p. 944).

Mais uma vez, sabemos que Marx descreve a Sociedade futura, e de modo que não resta qualquer dúvida sobre as diferenças específicas em relação àquela em que vivemos hoje, sobre os traços determinantes dessa, que na Transformação Revolucionária, deverão ser reduzidos ao Nada.

2.14. Um século de conflito teórico

Acreditamos ter estabelecido esse binômio dialético de proposições. As doutrinas ricardianas, fundadas sobre a medida do trabalho, são bem adequadas para descrever cientificamente qualquer economia capitalista, até que, qual seja a grandeza das forças produtivas e do capital, a ligação entre produção, distribuição e consumo seja a máquina da troca mercantil. Marx então rejeita qualquer sistema que ofereça uma descrição diferente dos fundamentos do capitalismo, que busque valor e riqueza – ou seja, valorização do capital – em uma fonte diferente do trabalho humano. Quando Marx, com olhos de águia, supera a lei do valor-trabalho, ele não expressa uma teoria do capitalismo minimamente diferente, nem desloca qualquer engrenagem de sua poderosa e harmônica construção científica, mas sinaliza a saída histórica do modo burguês de produção, o último dos modos mercantis e monetários concebíveis, medidores avarentos do tempo de trabalho.

O limite desse primeiro relatório nos impede de extrair da parte final, um esboço do livro IV do Capital, hoje publicado como Teorias do Mais-valor, a refutação de todas as escolas econômicas aclássicas que, depois de Ricardo e os seus, presas pela garra dialética da contradição, descoberta e demonstrada por Marx, se debatem para escapar abrindo brechas no teorema de que, enquanto se estiver nos limites da medida das trocas de mercadorias, não é possível extrair de outra fonte, que não seja o trabalho, um fator causal da formação de riqueza, id est, da acumulação do capital. Sim, desde que o órgão gigantesco do maquinismo se formou, a Ciência é capaz de proporcionar à espécie humana grandes massas de valores de uso que não custam trabalho, mas a Forma mercantil capitalista, enquanto não for destruída, faz com que essa dádiva não alcance a espécie, mas que seja infalivelmente transformada – mantendo-se extensa a jornada de trabalho – em fator de subsequente extorsão de mais-trabalho.

A lei de Ricardo incorporada por Marx é, em nossa acepção, caduca, mas não pode ser derrotada na guerra teórica, apenas na guerra civil e social, depois de ser posta sob o Calcanhar da Ditadura Revolucionária.

Para introduzir portanto a posição do relatório de Piombino, ou seja, que as escolas pós-marxistas, que buscam uma nova construção científica, apresentam um “modelo” diferente da máquina capitalista, se refutam com deduções que Marx já havia feito em seu tempo, nos limitamos a algumas observações contidas no maravilhoso conjunto de páginas sobre o qual trabalhamos:

“O capital fixo […] só produz valor, i.e., só aumenta o valor do produto em dois sentidos: 1) desde que ele tenha valor; i.e., que ele próprio seja produto do trabalho, certo quantum de trabalho em forma objetivada [isso quer dizer que uma máquina da fábrica é ativo de gestão quando é vendida, mais ou menos gasta, ao mercado]; 2) na medida em que ele aumenta a proporção do trabalho excedente em relação ao trabalho necessário, ao capacitar o trabalho, por meio do aumento de sua força produtiva, a criar uma massa maior de produtos necessários para a manutenção da capacidade de trabalho viva em menos tempo.” (MARX, 2011, p. 936).

Isso quer dizer, praticamente, que uma máquina nova permite que os operários gerem o dobro de produto no mesmo tempo. Mas, então, o sistema moderno faz com que a jornada de trabalho não seja reduzida pela metade e mantendo o mesmo salário, mas sim que ela permaneça igual, de modo que, reduzido o tempo necessário medido pelo salário vital, o resto se torne inteiramente mais-valor e novo capital. Isso continua sendo verdade mesmo que das quatro horas liberadas pela máquina, apenas três sejam destinadas à mercadoria produzida – que o assalariado só pode obter comprando-a –, meia hora para a redução da jornada do trabalhador, e outra meia hora a um aumento de salário de um décimo sexto, que seria na verdade um oitavo.

Isso nos parece claro. O texto acrescenta:

“Trata-se, portanto, de um palavreado burguês extremamente absurdo dizer que o trabalhador reparte com o capitalista porque este último, devido ao capital fixo (que, aliás, também é produto do trabalho e nada mais que trabalho alheio apropriado pelo capital), lhe facilita ou abrevia o trabalho (por meio da máquina, ao contrário, ele despoja o trabalho de toda a sua autonomia e de todo seu caráter atraente)” (MARX, 2011, p. 936).

Um desses economistas era Lauderdale, outro precursor dos keynesianos modernos e do estado de bem-estar social (welfare).

“Lauderdale acredita ter feito grande descoberta, a saber, que a maquinaria não aumenta a força produtiva do trabalho porque ela, ao contrário, substitui o próprio trabalho, ou faz o que o trabalho não pode fazer com sua força. Faz parte do conceito do capital que a força produtiva acrescida do trabalho é posta antes como aumento de uma força exterior ao trabalho e como seu próprio enfraquecimento”; e ainda mais: “Para a opinião que, como Lauderdale etc., gostaria de fazer o Capital enquanto tal, separado do trabalho, criar valor e, em consequência, também Valor excedente (ou lucro), o Capital fixo – principalmente aquele cuja existência material ou valor de uso é a maquinaria – ainda é a forma que mais sustenta a aparência de suas falácias superficiais.” (MARX, 2011, p. 938).

O capital fixo enquanto maquinário é aquele que hoje, tanto no Leste como no Oeste, chamam de complexo dos Bens instrumentais, com a mesma tendência de exaltá-lo para aumentar a massa das forças produtivas, o novo nome do Monstro que hoje sufoca a humanidade. Esse é um verdadeiro índice da dominação do modo capitalista de produção:

“É na produção do Capital fixo que o Capital se põe, em uma potência mais elevada que na Produção de Capital circulante, como fim em si mesmo e aparece efetivamente como Capital”. (MARX, 2011, p. 948).

2.15. Bem-estar keynesiano

Keynes é talvez o mais importante entre os economistas do capital que no inter-guerras buscou aperfeiçoar um modelo da presente economia, da qual deduz sua possibilidade de proceder sem contradições disruptivas. Não encontraremos entre suas grandezas básicas nem o capital constante, nem o capital variável e nem o mais-valor. O motor da produção social para ele são outras grandezas, umas experimentalmente compreensíveis como a população e a taxa de emprego de sua parte ativa. Ao lado dessas grandezas, ele introduz como elementos de partida outras completamente imponderáveis e “psicológicas”, nas quais vê o motor da história e da economia: são a “propensão ao consumo”, a “propensão a poupar” ou coisa parecida (bens de consumo lento) e a “propensão ao entesouramento”. Não é este o lugar de expor, nem de criticar o sistema. Mas esses dados que se pretende calcular – para dar-nos uma causa causarum similar a gravitação universal – a que podem conduzir de científico, quando nem mesmo um “como se” newtoniano se interpõe? Keynes e semelhantes (verifique o relatório da reunião de Asti) dizem: o homem consome porque e na medida em que deseja. Nós marxistas dizemos que o homem deseja de acordo com o que pode consumir, e por isso o moderno sistema de poder e de falsa ciência burguesa o cria com as drogas alimentares e ideológicas.

A Ditadura será necessária na virada da palingênese do Trabalho objetivado – da inversão da Práxis do Capital fixo –, não tanto para dominar a produção, que bastará deixar cair a níveis inferiores, liberando os servos do trabalho e das cadeias empresariais por bilhões de horas, mas sobretudo para inverter a práxis consumista, erradicar as formas patológicas do consumo, herdeiras das formas de opressão de classe. O homem singular, o cidadão, o indivíduo, da mesma forma que vai perder sob o Terror revolucionário a possibilidade de possuir riqueza e valor, matando nele sua propensão bestial, também perderá, tornando-se uma célula do eterno – e quase escrevemos “sagrado” – Corpo social, qualquer direito de lesar a si mesmo, de arruinar seu próprio organismo animal, de se intoxicar. Com isso não prejudicaria só o próprio corpo, mas a sociedade. O revolucionário só pode ser um desintoxicado, e é uma das razões por quais que nas Revoluções, mais que a massa, que será desintoxicada assim que se destruir a marca da servidão, atua a minoria do partido, nutrida no vivo de seu sangue com a anti-vigente e combatente Doutrina Integral.

Na reunião, a teoria da moeda que Keynes extrai daquela da propensão do homem a se dispor dela, para fundamentar um direito do detentor de dinheiro de retirar parte do produto social, foi desprezada com um relevo experimental. A sua conclusão é que (como exemplo era citada a política financeira inglesa) a taxa de juros ou de desconto tende historicamente a diminuir, retirando o caráter usurário da estranha grandeza algébrica que é a “propensão”. Lido o trecho deste falso profeta, foi confrontado com uma notícia do dia da reunião a que nos referimos: o Banco da Inglaterra pela primeira vez na história deu à taxa de desconto um empurrão, subindo-a em 2%, levando-a ao recorde de 7%!

A estes reencenadores de Malthus, Lauderdale e outros, bem se responde com o magnífico trecho de Engels na introdução ao Livro 2 do Capital, contra Robertus, outro campeão do Imediatismo. Eles tentam dar vida a teorias mortas, como no exemplo da química do flogisto 33, derrubada pela descoberta de Lavoisier (sobre a natureza da combustão como combinação com o oxigênio, e não como perda desse flogisto misterioso). Novas teorias podem surgir depois daquela da química atômica, e poderá como no século XX se decompor o átomo indivisível do revolucionário Lavoisier, mas a batalha contra o flogisto não será mais revertida, como aquela de Marx contra o Capitalismo.

2.16. A putrefata fórmula trinitária

Na reunião de Milão de setembro de 1952, usamos em profundidade os capítulos com os quais Marx desmonta a teoria trinitária dos rendimentos e suas fontes: parte do Rendimento vem do Trabalho, sendo retribuída no Salário, parte vem da Natureza e é a Renda, parte vem do Dinheiro e é o juro. 34. O próprio Lucro do Capital é obliterado nessa fórmula, à qual em substância se reduzem os moderníssimos professores da nova Ciência, a Economia do flogisto.

Naquelas páginas de Marx, flameja em oposição ao conceito burguês de Liberdade da Pessoa, o conceito comunista de Tempo disponível para a Espécie, o seu desenvolvimento material e mental, a sua harmonia de alegria.

A humanidade não sairá, disse Marx, da necessidade, mas esta não assumirá a forma de uma parte dela mesma contra a outra, mas sim apenas aquela da natureza ambiental, cada vez mais controlada e dobrada por uma Ciência sem mais flogistas e trindades (Livro 3, Capítulo 48, A fórmula trinitária):

“À medida de seu desenvolvimento [o do homem], amplia-se esse reino da necessidade natural, porquanto se multiplicam as necessidades; ao mesmo tempo, aumentam as forças produtivas [naturais, disciplinadas pelos mecanismos descritos nos Grundrisse] que as satisfazem [com um mínimo de trabalho necessário e, no limite, apenas com o voluntário trabalho-gozo]. Aqui [no comunismo], a liberdade não pode ser mais do que o fato de que o homem socializado, os produtores associados, regulem racionalmente esse seu metabolismo com a natureza, submetendo-o a seu controle coletivo, em vez de serem dominados por ele como por um poder cego; que o façam com o mínimo emprego de forças possível e sob as condições mais dignas e em conformidade com sua natureza humana.” (MARX, 2017, 1064-65)

Monumento e jóia surgidos do Cérebro social, a teoria do valor de troca de Karl Marx se completa ao longo das décadas de elaboração de sua obra, segue sem arrependimentos, e sem as melhorias e enriquecimentos dos desvairados modernos encerrados nos abismos da impotência de fixar a luz que cintilou num só golpe.

O valor de troca rege o tempo capitalista, e pelo seu curso o valor se mede pelo tempo de trabalho.

No socialismo não haverá mais medidas de trabalho nem de valor.

Não haverá mais trocas entre homens e homens. Resta uma única troca: entre a Sociedade humana e a Natureza.

Bibliografia

MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo: Boitempo, 2011.

MARX, Karl. O capital: Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

MARX, Karl. O capital: Livro II. São Paulo: Boitempo, 2014.

MARX, Karl. O capital: Livro III. São Paulo: Boitempo, 2017.