De Baixo para Cima, de Cima para Baixo: notas sobre auto-organização e cooptação
Há uma certa ironia no destino das lutas que começam debaixo e terminam sendo celebradas por cima. Não é uma ironia nova — é, na verdade, um padrão tão recorrente na história do movimento operário que já representa uma lei. O que se passou no IFG Campus Goiânia, e o que se passou no país inteiro em torno do fim da escala 6x1, são dois episódios distintos em escala, mas atravessados pela mesma contradição: a dificuldade de transformar uma vitória pontual em poder autônomo dos trabalhadores.
1 - O calote, os terceirizados e os “anjos”
No instituto Federal de Goiás, campus Goiânia, trabalhadores terceirizados viviam uma situação que não é exceção neste país: a empresa contratada pela instituição estava de saída, e pretendia deixar para trás uma dívida de FGTS que era, na prática, um calote. São esses trabalhadores invisíveis que limpam, vigiam, mantêm — e que, justamente por serem terceirizados, ficam numa zona cinzenta de responsabilidade onde a instituição pública lava as mãos e a empresa privada some.
Foi nesse contexto que um pequeno grupo, formado por estudantes e servidores da instituição, entrou em contato com esses trabalhadores. O resultado foi concreto: através da pressão organizada sobre a empresa, foi possível garantir o pagamento integral do FGTS que pretendiam sonegar. Uma vitória real que representa dinheiro no bolso de quem mais precisava.
O grupo não se limitou à denúncia nas redes. Criou uma rede de divulgação dos problemas, colando nos murais da instituição relatos dos próprios trabalhadores, em uma tentativa de tornar visível o que a gestão preferia manter na sombra. O objetivo era claro: não resolver o problema pelos trabalhadores, mas construir, junto com eles, um instrumento de enfrentamento que fosse seu. E é aqui que a vitória começa a revelar seus limites.
Após o calote ser revertido, os trabalhadores atribuíram a conquista ao grupo. Chamaram seus integrantes de salvadores, de “anjos”. A palavra é reveladora: anjo é uma figura externa de proteção, que vem do alto para intervir em momento de crise e depois vai embora. Não é um companheiro de luta, é um benfeitor. Ao colocar a vitória nas mãos do grupo e não nas suas próprias, os trabalhadores reproduziram, sem querer, exatamente a lógica que o grupo tentava combater: a de que a luta é coisa de quem tem estrutura, tempo, conhecimento — não de quem trabalha.
Isso não é culpa dos trabalhadores. É o resultado de décadas de um sindicalismo que também funcionou como estrutura externa: que aparecia na hora de assinar acordo, mas não estava presente no dia-a-dia do chão de fábrica, do corredor da escola, do refeitório do instituto. O sindicato da categoria, aliás, brilhou pela ausência durante todo esse processo. Não por acaso, os trabalhadores desconfiavam dos próprios colegas ao mesmo tempo em que se abriam para o grupo: faltava o tecido de confiança horizontal que só se constrói com tempo, convivência e experiência compartilhada de luta.
A auto-organização não nasceu. E sem ela, qualquer vitória corre o risco de ser apenas um alívio temporário e não uma transformação na relação de forças.
2 - A 6x1, a reitora e o bônus da vitória
Consciente desse limite, o grupo insistiu. Levantou a contradição pública da reitora da instituição, que nas redes sociais se manifestava a favor do fim da jornada 6x1 enquanto mantinha os terceirizados sob exatamente essa escala. Era uma contradição gritante, e torná-la visível era uma forma de pressão política legítima.
Mas sem uma base organizada que sustentasse a pressão de dentro, o debate ficou à deriva. As tentativas de reunir os trabalhadores em momentos informais, fora do expediente, para confraternização e debate, não vingaram. O grupo, percebendo que estava ocupando o lugar que os próprios trabalhadores deveriam ocupar (tornando-se, na prática, um sindicato informal), foi diminuindo sua atuação. Não por desinteresse, mas por princípio: não fazia sentido manter uma estrutura externa que substituísse a organização dos trabalhadores em vez de fomentá-la.
O desfecho é, de novo, revelador. Após o recuo do grupo, a reitora convocou uma reunião e anunciou o fim da escala 6x1 para os terceirizados. A medida era justa, mas também uma jogada política da reitoria, sendo rápida em adequar o IFG no recém assinado ato da Instrução Normativa nº 148/2016 do governo federal, reduzindo de 44h para 40h a jornada dos terceirizados em órgãos federais. Ainda, a forma como foi apresentada, ou seja, como gesto da gestão, como concessão de cima, capturou o bônus político de uma luta que veio de baixo. A reitora que contradizia sua própria militância digital passou a ser a responsável pela conquista. Os trabalhadores, de novo, ficaram como coadjuvantes de sua própria história.
3 - O Tiktok, o VAT e a PEC
O que aconteceu no IFG é um microcosmo do que aconteceu no país.
Tudo começou com um trabalhador comum, cansado, que gravou um vídeo no TikTok desabafando sobre a escala 6x1. O vídeo viralizou. Havia algo naquele desabafo que ressoava numa experiência coletiva que nunca tinha encontrado forma — milhões de trabalhadores que acordam exaustos em seu único dia de folga sabendo que no dia seguinte voltarão para o trabalho novamente.
Desse vídeo nasceu o VAT (Vida Além do Trabalho). Não era um partido nem um sindicato: era uma iniciativa de agitação que colocava na pauta pública uma questão que os trabalhadores viviam na pele mas que dificilmente chegava ao debate político. A força do VAT estava exatamente em sua forma: horizontal, descentralizada, alimentada por identificação direta, não por filiação institucional. Para quem viveu a luta contra o aumento das passagens em 2013, havia uma semelhança no ar. Como um camarada notou, até nos slogans havia uma proximidade no sentido que aponta para a necessidade de se construir uma realidade melhor: “Por uma vida sem catracas” do MPL e “Vida além do trabalho” do VAT. Os defensores do governo, inclusive, deixaram claro no início a sua rejeição ao movimento, comparando-o às jornadas de junho de 2013 e criticando aqueles que levantavam a bandeira do fim da 6x1 como idiotas úteis à serviço da extrema-direita.
Não tardou para o movimento começar a se burocratizar. O influencer que se tornou o dono e chefe do movimento começou com os expurgos daqueles que reclamavam por maior autonomia interna. Aqui em Goiás, por exemplo, a tentativa de levantar o movimento VAT enfrentou uma burocracia tremenda, com direito a controle sobre tentativas de reuniões, que só poderiam ocorrer com a presença dos chefes do movimento, nomeados staff (lógica organizacional e vocabulário da hierarquia dos locais de trabalho). Não tardou para que o influencer se deixasse cooptar por um partido político, para logo ser eleito vereador no Rio de Janeiro. Logo em seguida, a pauta foi incorporada por parlamentares. Uma PEC foi apresentada. O debate foi capturado pela lógica do gabinete, com seus acordos, suas negociações com os representantes dos patrões, seus prazos eleitorais. A auto-organização que germinou num vídeo caseiro foi canalizada para dentro das instituições que, por definição, funcionam em outro ritmo e atendem a outros interesses que não são os interesses dos trabalhadores, mesmo que alguma concessão mínima seja feita.
A bandeira da 4x3, que o VAT defendia com vigor no início, foi se tornando um horizonte hipotético. O que sobrou foi a promessa da escala 5x2 — uma conquista real, não há como negar, que representa o anseio de uma grande parte da classe trabalhadora. Mas uma conquista apresentada como presente do governo, como atitudes individuais de Rick ou Érika, como resultado de uma política progressista de cima, apagando a faísca que a acendeu lá embaixo na coletividade da classe trabalhadora indignada.
4 - Vitória e derrota ao mesmo tempo
O fim da escala 6x1, quando vier, será uma conquista parcial. Não podemos negar isso. Trabalhadores vão ter mais tempo para descanso, para a família e para si mesmos, como nos contaram aqueles trabalhadores terceirizados do IFG. Isso tem muito valor em nossas vidas, mas há uma derrota embutida nessa conquista, e ela precisa ser nomeada.
A derrota está no processo. Está no fato de que uma mobilização que nasceu da raiva e da criatividade de trabalhadores comuns foi progressivamente capturada, domesticada e reapresentada como política de Estado. Está no fato de que a pauta foi rebaixada (da 4x3 para a 5x2), sem que os próprios trabalhadores tivessem controle sobre esse recuo. Está, sobretudo, no aprendizado que não ficou: na ausência de uma experiência de auto-organização e independência que os trabalhadores possam carregar para a próxima luta.
Quando a conquista é apresentada como gesto do governo, ou da reitora, ou do sindicato, ou dos “anjos”, ela aliena os trabalhadores de seu próprio poder coletivo. Cria dependência onde deveria criar autonomia. Ensina que é preciso esperar que alguém resolva de qualquer jeito, em vez de aprender que é possível resolvermos juntos e impondo ao máximo nossas reivindicações.
É por isso que a pergunta que fica não é apenas “ganhamos ou perdemos?”. A pergunta é: quem aprendeu o quê, e com isso na mão, o que é possível fazer da próxima vez?